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11 de Março de 2011 - O Dia em que o Japão parou

11.03.2018

 

— Onde você estava no dia?


Durante muito tempo, esta foi a primeira pergunta que a maioria das pessoas me fazia quando assuntos relacionados ao Grande Terremoto vinham à tona. Boa parte dos curiosos não estava no Japão naquele 11 de março às 2:46 da tarde, momento em que o terremoto de 9 pontos de magnitude irrompeu de uma profundidade de 32 km no leito do Oceano Pacífico, num ponto a cerca de 67 km da costa mais próxima. Pouca gente sabe, porém, que, antes daquele que seria o maior terremoto já registrado no arquipélago japonês, dezenas de abalos premonitores afetaram a região. O mais forte deles ocorreu dois dias antes e atingiu 7,2 pontos de magnitude. Minutos antes do Grande Terremoto, um forte abalo premonitor chegou a sacudir Tóquio. Eu estava num almoço, no bairro de Shibuya, um dos mais movimentados da capital japonesa. Era para ter sido a comemoração de mais um trabalho finalizado.

 

A tarde estava fria e o céu, um pouco encoberto. Tudo indicava que seria mais um típico dia do mês de março. Eu tinha acabado de gravar um dos meus programas na Rádio Japão e fui ao encontro do fotógrafo Daniel Mattar, da produtora de moda Bebel Moraes e da tradutora Sarah Kimura. Daniel tinha me contratado como produtor para um projeto fotográfico que acabou sendo lançado em maio do ano seguinte com o instigante título de Simulacro. Bebel o acompanhava como diretora de arte e Sarah trabalhou no meu lugar naquele dia, já que eu tinha outro compromisso marcado. 

 

As buscas de Daniel tinham como foco inicial a cultura pop japonesa e, acredito que, depois de analisar o material “coletado, ele tenha encontrado algo mais e criou um trabalho que discute o consumo solitário. Mal sabíamos nós que o consumismo no Japão — algo controverso, já que o país vive a contradição de ser um dos que mais consome no mundo, apesar de imerso numa crise que poderia ser parcialmente solucionada com mais consumo — iria estar no topo da pauta nos meses que se seguiram.)

 

Não havia nada de especial na comida servida naquele pequeno restaurante localizado no térreo de um prédio na parte leste de Shibuya. Era a minha primeira vez no local e o frio fez com que o escolhêssemos sem muito critério. O interior era típico de restaurantes simples no Japão: paredes e mesas de madeira barata, decoração sóbria com um tom rústico fake e um atendimento com cara de fast-food, mas nem de longe ruim. O menu também não era muito variado. Nem me lembrava, para ser honesto, do que escolhi naquela tarde. Foi a Sarah que me fez recordar: tempurá, uma espécie de empanado.

 

O trabalho estava oficialmente encerrado mas ainda tínhamos planos de fazer imagens do E-5, uma nova série de trens-bala que tinha entrado em serviço menos de uma semana antes. O papo descontraído foi interrompido pelo primeiro e já forte terremoto.

 

Quando o prédio começou a tremer, o homem que parecia ser o gerente da casa estava no caixa, esticou a mão e abriu a porta corrediça da entrada. É uma medida preventiva, para evitar o emperramento da porta. Foram alguns segundos de um certo desconforto. O tremor parou logo e tudo parecia estar sob controle novamente. O gerente fechou a porta automática. Desconfortáveis, meus companheiros de mesa pareciam ter perdido a fome.


Apesar de estar no Japão há alguns anos, era a primeira vez que sentia um terremoto daquela forma. Diz-se que dentro dos prédios mais novos, os terremotos são sentidos com mais intensidade. Acontece porque eles têm sistemas de segurança que os permite balançar com as ondas do sismo evitando que eles quebrem. 


Não que eu não tivesse noção das consequências de um grave terremoto e, por isso, pareça ter estado excitado como uma criança. Porém, existe no Japão uma enorme confiança na engenharia dos prédios e, também, nos mecanismos de treinamento das pessoas para situações de calamidade. E, com tanto tempo no Japão, essa confiança de que tudo iria estar bem já tinha me contaminado.

 

O Daniel e a Bebel, no entanto, estavam assustados. Sarah, talvez um pouco como eu, estava relativamente tranquila, embora alerta. Eu estava tentando terminar o meu prato quando o tremor maior veio. Na cozinha do restaurante, as louças começaram a cair. As luminárias do teto balançavam com mais intensidade e eu já sentia o corpo se mover junto com o prédio. Desta vez, o gerente não teve dúvidas. Abriu a porta novamente e disse, sem desespero mas de forma grave:

 

— É melhor que todos saiam.

 

Saímos todos, calmamente, de dentro do local. Nenhum de nós pagou a conta naquele momento. Nem o gerente parecia estar preocupado com prejuízo. O mais importante era salvar vidas. Agora, estávamos todos estarrecidos. Instinto de mãe, Bebel pensou em ligar para o filho. Mas era madrugada no Brasil e ele provavelmente estaria dormindo, ainda sem saber o que tinha se passado no Japão.

 

Parados na calçada e eu me lembrei da recomendação de ficar longe dos prédios. Se houver danos em algum edifício, janelas ou mesmo pedaços da construção podem cair e atingir a quem está do lado de fora. Fizemos como boa parte das pessoas e fomos para um pequeno largo entre duas ruas que se encontram.

 

Cada vez mais gente deixava os prédios ao redor. Muitos com capacetes na cabeça, uma das medidas de segurança introduzida nas empresas. Por causa dos terremotos, é comum cada funcionário ter, em sua mesa ou próximo a ela, um kit com lanterna, apito, outros itens e um capacete.

 

Não demorou para a rua estar lotada de gente. Shibuya é um bairro de serviços, cheio de escritórios de companhias de diversos setores. Além disso, é um distrito de compras e lazer com muitos restaurantes, cinemas, izakaya e depāto. Imenso ponto de atração em Tóquio, o bairro se tornou mundialmente conhecido pelo seu cruzamento sempre cheio de gente e que virou cenário de filmes de grande sucesso como Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003, dir: Sophia Coppola) e Velozes e Furiosos — Desafio em Tóquio (The Fast and the Furious - Tokyo Drift, 2006, dir: Justin Lin).

 

Comecei a ter consciência de que, daquela vez, era algo maior do que eu pudesse imaginar. As réplicas — tremores menores que se seguiam ao principal — não paravam. Já estávamos do lado de fora por alguns minutos quando decidimos voltar ao restaurante para pagar a conta. Sarah me lembrou, tempos depois, que eu ainda tive ganas para comer os tempurá que tinham ficado no meu prato. Ainda bem. Mal sabia eu o que estava por vir naquele dia.

 

Mulheres reagem às imagens do tsunami transmitidas ao vivo na TV da estação de Shibuya

 

Voltamos à rua e notei que o trânsito tinha ficado lento. Mais tarde, viríamos a saber que a circulação de todas as linhas de trem, metrô e bonde da Região Metropolitana estavam suspensas. O transporte público é essencial em Tóquio e somente uma pequena fração das pessoas transita de carro por aqui. Mesmo assim, como todas as atividades foram interrompidas, um grande contigente de veículos foi parar na rua ao mesmo tempo.


Ao contrário do que chegou a ser divulgado na TV brasileira, não havia desespero. De um certo modo, as pessoas ainda não tinham ideia muito clara da extensão do problema em Tohoku, região nordeste do Japão, a mais atingida pelos eventos do dia. Eu não sabia ainda, mas já tinha havido o tsunami.  No entanto, naquela região de Tóquio, não havia pânico, apesar do clima de excepcionalidade.


Sarah, assim como as demais pessoas ao nosso redor, procurava informações pelo telefone celular. A rede telefônica estava congestionada, mas a TV digital e a internet seguiam funcionando. Íamos montando o quebra-cabeças aos poucos. Eu estava ficando mais tenso até porque não parava de tremer. Depois saberíamos que mais de oito centenas de réplicas dignas de registro se seguiriam ao Grande Terremoto, ao longo de alguns meses.

 

Daniel e Bebel estavam muito nervosos. Sarah já sabia que o transporte público estava parado e que houvera pelo menos um tsunami. Sua expressão era de muita preocupação. Eu estava cheio de sentimentos diferentes: sabia que era algo muito grande e de graves consequências para o país; mas, por outro lado, para mim, era como um rito de passagem. Diz-se que uma grande tragédia ocorre a cada geração no Japão. E, também, se diz que alguém não pode decidir permanecer para sempre no país sem antes passar por uma catástrofe como a de 11 de março de 2011. Já tinha feito a minha escolha, mas aquele estava sendo o primeiro grande desastre natural que eu vivia.

 

Sempre com menos agasalho que o necessário, eu estava com frio. Além disso, me sentia responsável pelo Daniel e pela Bebel que eram, afinal, meus clientes e, àquela altura já tinham se transformado em amigos. Um evento daquele tamanho aproxima as pessoas e, junto com a Sarah, só tínhamos uns aos outros naquele momento.


O frio apertava e foi difícil convencer o Daniel e a Bebel a entrarem no hotel. Como as réplicas se seguiam, eles, é claro, estavam com medo de entrar no edifício. Mas, eu morava a quase 20 quilômetros do local em que estávamos e a Sarah tinha que ir para ainda mais longe. Despedimo-nos dos dois e só soubemos deles alguns dias depois quando já estavam em Paris. Ainda não sabia se conseguiríamos chegar em casa. Quando eles decidiram entrar no hotel, partimos para a estação.

 

Segunda estação mais movimentada do mundo, Shibuya atende a cerca de 2,5 milhões de passageiros por dia. São seis linhas de trem e duas de metrô que ligam o bairro a diversas localidades da Região Metropolitana. Algumas dessas linhas estão dentre as mais congestionadas do Japão. Além da estação ferroviária, dois terminais de ônibus abrigam dezenas de trajetos, atraindo mais passageiros. Estima-se que mais de 1 bilhão e 100 mil pessoas utilizem a estação de Shibuya anualmente.


Chegamos na estação e encontramos, como esperado, uma multidão. Monitores normalmente usados para propaganda ou para fornecer informações sobre o funcionamento dos trens estavam sintonizados num canal de TV. A programação normal fora suspensa e todas as informações eram relativas ao terremoto e ao tsunami. Na estação de Shibuya, japoneses e turistas assistiam, pela primeira vez em tempo real, a onda gigante carregar tudo: casas e prédios inteiros, veículos de todos os portes, incluindo aviões e locomotivas e, para o nosso desespero, gente. Era por voltas das 4 da tarde e o mundo também já sabia da grande tragédia.

 

Navio arrastado para dentro da cidade de Kesennuma.

 

Saí da estação meio desnorteado ainda na esperança de chegar em casa. Algumas linhas de ônibus estavam em funcionamento mas poucas pessoas seriam beneficiadas. Em Tóquio, o ônibus urbano é um transporte complementar e são poucas as linhas de longa distância. Mesmo assim, havia muita gente nos pontos de ônibus. Ordenados em fila, todos esperavam a sua vez de embarcar. Não havia tumulto, nem gente tentando furar a fila. Este comportamento iria se repetir em diferentes situações que eu presenciaria mais tarde, já nas áreas mais atingidas.


Menos de uma hora depois, Sarah e eu embarcamos num ônibus que nos levaria até a metade do caminho da minha casa. No entanto, o congestionamento já era grande e, como não saíamos mais do lugar, decidimos seguir a pé. Descemos perto da Tokyo Tower, um dos símbolos da capital japonesa.

 

Ao longo da viagem, decidi entrar em contato com a minha família mas os telefones celulares seguiam congestionados. No entanto, a internet funcionava bem e, através do Facebook e do Twitter, publiquei posts explicando a minha situação e tranquilizando as pessoas.


Já na rua, usar o telefone público também era um desafio. Filas se formavam e nem todo mundo conseguia completar chamadas. Neste dia, a internet foi o meio mais rápido de enviar e receber notícias. As informações, no entanto, eram desencontradas. Eu estava exatamente em frente à Tokyo Tower quando li que a torre tinha entortado! A “notícia’ se espalhava pelo Twitter e a torre ali, ereta na minha frente. Naquele momento, entrei ao vivo com o iPod pelo Twitcam para mostrar a torre. Horas depois, foi confirmado que apenas a antena do alto da torre tinha ficado torta por causa do terremoto.

 

Já minha tentativa de trazer informações mais tranquilizadoras acabou em alguns minutos. O modem da internet wi-fi tinha ficado sem bateria.Já era noite e segui caminhando com a Sarah até a estação de Yurakucho, no centro financeiro de Tóquio. Tinha muita gente andando na rua, algo incomum naquela hora e naquela proporção. Estava ficando mais frio, eu não tinha mais modem que conectava o iPod ao Google Maps e não sabia usar o sistema de mapas do celular. Não estava perdido, porém não sabia chegar em casa a pé.

 

Placas pedem pela recuperação da região de Tohoku num templo de Sendai.

 

Sarah ficou em Yurakucho para tentar encontrar a irmã que estava na região e eu segui sozinho, confiando nas placas que guiam o trânsito de veículos. Era a primeira vez que eu andava uma distância tão longa em Tóquio. Sentia fome, mas todos os bares, restaurantes, lojas de conveniência e afins que eu encontrei no caminho estavam sem estoque. Naquele momento, entendi “que o metrô subterrâneo, apesar de conveniente, faz com que a gente conheça menos a cidade. Por conta deste e de outros fatores, meses depois, comecei a explorar Tóquio de bicicleta. Hoje conheço melhor a cidade e, de quebra, perdi peso. 

 

Foram quase seis horas, no total, de Shibuya até a minha casa, então no distrito de Taito. De trem, o percurso, contando a parte que eu andava a pé, não levaria nem 40 minutos numa situação normal. Cheguei em casa exausto, com frio e com fome, já no dia 12. Dentro de casa, apenas a estante de CDs tinha ido ao chão. No mais, tudo estava no lugar. Mas nem eu nem o Japão seríamos mais os mesmos depois daquele dia.

 

O terremoto seguido de tsunami deixou um saldo assustador: 15.878 mortos, 6.126 feridos, 2.173 desaparecidos, 129.225 construções totalmente destruídas, 254.204 construções em mais da metade danificadas e 691.776 construções com danos em menor escala. Cerca de 4,4 milhões de residências ficaram temporariamente sem energia elétrica e 1,7 milhões sem água. Mas o pior ainda estava por vir: a revelação de que o tsunami tinha danificado os sistemas de refrigeração das usinas nucleares Fukushima 1 e 2 gerando o segundo maior acidente nuclear da História e colocando o Japão novamente na rota dos males que podem ser causados por este tipo de energia.

 

 0:44 | Cidade de Minami-sanriku 1 ano após o tsunami

 

 

Trecho do livro “KOME”, lançado em 2013. Para baixá-lo gratuitamente, acesse a iBooks Store.

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