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Como me tornei um campeão do carnaval no Japão

12.02.2018

 

“Carnaval? No Japão? Contra outra meu velho!”

 

Foi o que eu ouvi na primeira vez que decidi contar esta história para alguém. O ouvinte foi um  amigo brasileiro, apaixonado por carnaval. Ele é daqueles que pegam do primeiro ao último bloco todos os dias da folia e ainda arruma tempo para ver os desfiles das escolas. “Do Rio, claro. São Paulo não é o túmulo do samba por acaso”, dizia ele antes de se lembrar que o carnaval paulistano anda cheio de blocos bacanérrimos…

 

Daí, eu tive que falar para ele do Asakusa Samba Carnival.

 

“Assá o que?”

 

“Assá-kussá. Se escreve Asakusa mas se lê assá-kussá. É um bairro de Tóquio, um dos mais tradicionais. Lá rola todo ano um carnaval no estilo brasileiro, com desfiles de escolas de samba e o caralho. É em agosto.”

 

“Porra, agosto? Esses japoneses são mesmo do contra...”

 

“Claro que é em agosto, seu mané. Sim, eles são do contra, do contra-hemisfério. Agosto é verão lá, né, pateta?”

 

Sim, ele sabe disso. O cara é geógrafo mas quando o assunto é carnaval, a cabeça dele vira ao avesso. Enfim, fui contando para ele que o Carnaval de Asakusa é o maior do mundo fora do Brasil. Atrai mais de 500 mil pessoas todo ano para o desfile que rola em duas avenidas do bairro. Fui explicando...

 

“Tem tudo o que tem no Desfile das Escolas do Rio. As escolas escolhem um enredo. Tem samba, passistas, alas, fantasias, alegorias e adereços…”

 

“Passista tipo no Brasil, peladona? Tem rainha da bateria?”

 

Sim, tem rainha da bateria. Peladona, depende. As fantasias são muito parecidas e como dá um monte de coroa com cara de tarado com suas câmeras poderosas e lentes capazes de fazer até um ginecológico, é capaz de que as mulheres estejam mesmo peladonas, pelo menos para os padrões locais.

 

“Que maneiro!”

 

Olhei para a cara dele e vi que o cabra estava mais embasbacado que tarado. Então, deixei passar. Mas não sem ressaltar que a organização do evento anda atrás dos velhos safados, de olho para eles não desrespeitarem as passistas. Porque, se deixar...

 

"Que safados, esses coroas!"

 

Nem todos mas… Continuo contando para ele que as escolas também se dividem em grupos que podem subir ou descer ao sabor dos resultados. E que eu sempre achei interessante a ideia de um carnaval feito por estrangeiros num país tão distante. Um belo dia q me chegou um convite para participar do desfile.

 

“Tu? Tu não entende nada de samba, rapá!”

 

Tive que engolir essa. Meu amigo estava coberto de razão. Vim de família evangélica, então, carnaval sempre passou o mais longe possível da minha criação. Mas, sendo carioca, esse longe nem sempre é o que os “preceitos” da igreja gostariam. Os blocos continuam a passar nas ruas e os desfiles das escolas de samba, na TV. Querendo ou não a gente vai aprendendo do que é feita a folia. O carioca respira (ou é sufocado pelo) carnaval.

 

De tudo o que eu via dos desfiles na televisão, uma coisa me chamava mais a atenção: os gritos de guerra das agremiações. Foi numa brincadeira com uma amiga que era puxadora de uma escola que surgiu o convite.

 

“Tu fez o grito de guerra da escola e a mina te chamou?”

 

É, mais ou menos isso. A vaga de puxador-auxiliar, aquele vai fazendo as improvisações, tava aberta. A escola tinha duas puxadoras e uma cantora convidada e queria uma voz masculina para auxiliar.

 

"Puta quiu pariu!"

 

Isso foi ele agora mas, puxando bem da memória, fui eu também, na hora do convite. Fiquei gélido. Poderia recusar, claro. Mas, aí a minha carioquice sairia ferida. De morte. Foi assim que, apesar do receio, acabei aceitando. A escola, Nakamise Bárbaros, era e ainda é a maior campeã do Carnaval de Asakusa. Tipo, sei lá, uma Portela ainda no auge?

 

“Bárbaros!? Que irado!”

 

Meu amigo já tava delirando. Ele já tinha desfilado em escola de samba mas nunca morou em comunidade forte. Então, apesar de ser Mangueira de coração, não tinha acesso à comunidade. Era folião não carnavalesco. Mas senti uma ponta de vontade de estar no meu lugar…

 

“Então, dali comecei a frequentar o ‘barracão’ deles e…”

 

“Tem barracão? Caraca, que sinistro!”

 

“Barracão”, né? Entre aspas, mesmo. As escolas de samba de Asakusa não têm muitos recursos. Elas contam com o coração (e o bolso) dos foliões. As fantasias são vendidas, como no Brasil, e é uma das formas de injetar recursos na escola. Praticamente todo mundo colabora. Bota a mão na massa e tira grana do bolso. Resumindo, parcos recursos e, por isso, a grande maioria das escolas não tem um espaço próprio de ensaios. Naquela época, por exemplo, a Bárbaros ensaiava na beira de um rio, debaixo de um viaduto, bem distante das casas.

 

“Caralho! Que foda!”

 

Meu amigo já estava alucinado. Não queria mas tive que contar para ele que eu estava desesperado. Eu nem morava em Tóquio ainda e não tinha como frequentar os ensaios sem gastar uma fortuna. Além disso, eu — logo eu, que até uns dias antes daquele batia no peito para dizer que não curtia carnaval — tinha assumido a responsabilidade de puxar um samba-enredo numa avenida na frente de 500 mil pessoas!!! Tava quase dando para trás.

 

"Como assim?"

 

"Te falei que era na maior campeã do Carnaval de Asakusa? Que é, tipo, uma Portela no auge?"

 

“Falou, cara, mas… E aí? Você foi, né?”

 

Claro que fui. Quem não iria? Já estava certo e apalavrado: chovesse ou fizesse sol, eu estaria lá. E choveu.

 

“Desfile na chuva? Puta quiu pariu!”

 

Chuva é um problema para carros alegóricos, fantasias, alegorias, adereços e para a minha voz. Fui professor por 10 anos e meu maior problema era uma tal fenda nas pregas vocais que faz a voz ficar rouca e ir sumindo aos poucos. Em outras palavras, em condições normais já tinha tudo para eu nem chegar ao fim do desfile cantando. Com chuva, então…

 

"Cara, tu é muito cagado..."

 

Desfile atrasado. Eu em silêncio, contando com as minhas aulas de teatro tomadas em vários momentos da vida. Técnicas de projeção de voz, exercícios de vocalização, água na temperatura ambiente, samba-enredo decorado e pavor… Até que o locutor anuncia no alto-falante:

 

"Nakamise Bárbaros!"

 

E na minha cabeça isso ecoava como "grande campeã, o desfile mais esperado". Eu, ali, com medo de não conseguir nem abrir a boca mas, na verdade, era o meu amigo que já não falava mais nada. Os olhos dele implorando para que eu continue a história. E eu, parvo de novo, como tinha estado anos antes...

 

“Então... Foi.”

 

“Foi? Como assim? E a emoção? O barulho da torcida? A galera cantando junto! Como assim ‘foi’?”

 

Minha memória foi clareando de novo.

 

“Cara, sei lá! É difícil explicar. Galera cantando junto não teve, né? O samba é em português. O pessoal não entende nada. Mas, quando você começa a soltar a voz, improvisar que era mais a minha função, a galera te olha como se você fosse uma estrela. E, ali, você passa pelo meio da rua, com as pessoas na calçada. Elas estão muito perto. Você toca nelas, sorri para elas. Você se sente amado.”

 

“Caraca!”

 

“E você olha para as outras pessoas da escola, elas confiam em você. Tá todo mundo ali cantando, sambando, como sabe, como pode... Mas é uma sensação de pertencimento... Nunca tinha tido um senso de responsabilidade tão grande. Ninguém me cobrou nada mas...”

 

Percebi que meus olhos começaram a marejar… Fazia quase 10 anos e eu nunca tinha parado para processar aquele momento. Foi a primeira vez que eu me senti muito brasileiro no Japão. Eu estava ali só por isso. Aquelas pessoas ensaiavam várias vezes por semana. E eu? Eu era um convidado cujo único mérito era ser carioca. Eu estava assumindo a voz da escola só por ser brasileiro. Isso é mais que uma honra.

 

“Mas e a escola?”

 

“Ganhou!”

 

“Ganhou?! Caralho, que foda!”

 

Sim, a escola celeste e branca levou mais um carnaval, para alegria desses japoneses bárbaros que fazem com tanto amor um pequeno maior espetáculo da terra. E eu, desde o momento em que pisei naquela avenida, já era um verdadeiro campeão do carnaval. E isso afetou a minha percepção de mim mesmo com muita força.

 

Já o meu amigo, no final da conversa tinha os olhos num lugar muito distante. Acho que vou ter visita no próximo mês de agosto.

 

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