Escola enfrenta críticas após adotar uniforme Armani

09.02.2018

 

Muitas escolas aproveitam os últimos meses do ano para apresentar à comunidade escolar os modelos de uniforme para o ano letivo que começa em abril. O fato, mais que comum, não costuma chamar muita atenção, exceto quando algo vai muito errado. Foi o que aconteceu em uma escola pública com 140 anos de história localizado no chique e caríssimo bairro de Ginza, em Tóquio. A Taimei, que oferece o equivalente ao primeiro segmento do Ensino Fundamental, comunicou aos pais que os novos uniformes a serem adotados seriam da marca Armani. O custo estimado para cada conjunto pode chegar a ¥90 mil, cerca de R$2.500.

 

Ginza é um dos metros quadrados mais caros de Tóquio. O bairro abriga lojas das mais luxuosas marcas de moda e design de jóias do planeta. A escola, por exemplo, fica a cerca de 400 metros da Armani Ginza Tower, um complexo com loja, restaurante e spa construído em 2007 para ser uma loja-conceito da marca. Assinado pelo casal de arquitetos italianos Doriana e Massimilliano Fuksas, o prédio não é o único no bairro com pedigree. Por isso, as ruas de Ginza estão sempre repletas de turistas endinheirados em busca de luxo e novidades. O bairro, também, é conhecida fonte de novas tendências. Foi aqui, por exemplo, que surgiram os primeiros cafés do Japão, no final do século 19, imitando os estabelecimentos de Paris, turbinados pelos grãos vindos do Brasil.

 

Ginza é uma das áreas mais nobres de Tóquio.

foto: Roberto Maxwell/Direto do Japão

 

Mesmo com toda a pompa associada ao bairro, o anúncio não pegou bem junto aos responsáveis pelas crianças que estudam na Taimei. Segundo reportagem publicada pela versão japonesa do Huffington Post, as reações que variaram do choque à indignação. "Fiquei surpresa.  Por que uma escola pública escolheria uma marca de alta costura?", disse uma responsável. A entrevistada contou ao site, ainda, que ficou desorientada com o anúncio. "Não acho que seja uma coisa boa vestir as crianças com uniformes de marca", desabafou a mulher. "Será que não estamos criando na criança um sentimento de que o que é caro é bom e o que é barato é ruim? Isso me preocupa", questionou ela.

 

Integração com o bairro

 

Em comunicado à comunidade escolar publicado no Huffington Post, o diretor Toshitsugu Wada se desculpa por não ter sido claro em suas intenções e afirma que, dentre outros motivos, quer com que a escola se integre ao bairro onde se localiza. "Gostaria que os responsáveis tivessem a consciência de que seus filhos estudam numa escola assim", escreveu ele, se referindo à sua intenção com a mudança. Wada cita, ainda, os Jogos Olímpicos de 2020 que "mudarão a aparência" do bairro de Ginza que, lembra ele, "abriga lojas de marcas famosas do mundo inteiro". "Não foi minha intenção nos associar com uma marca mas a Escola Taimei é um ponto de referência em Ginza e Ginza é uma marca. (...) Quando quis associar a marca Ginza à marca da Taimei, pode ser que, inconscientemente, eu tenha querido criar uma unidade entre a escola, as crianças e o bairro", explicou o diretor.

 

O diretor justificou, ainda, a escolha pela marca Armani dizendo que tinha entrado em contato com outras marcas mas não recebeu acolhida à sua ideia. "Somente a Armani nos ouviu e ficou de pensar [no assunto]", disse. Segundo a reportagem, a decisão de usar o uniforme da marca foi única e exclusivamente do diretor.

 

A reportagem do Huffington Post procurou, para comentar o caso, a Secretaria de Educação de Chuo, um dos municípios que compõem a capital japonesa, onde fica a escola. Consultado sobre o assunto no verão do ano passado, o órgão diz que informou ao diretor que "uniformes devem ser decididos com a participação dos professores, da associação de pais, dos responsáveis, de diversas pessoas". 

 

A questão repercutiu também no Congresso japonês. Numa reunião da Comissão de Orçamento, o Ministro das Finanças Taro Aso chegou a comentar o caso. "Sem dúvidas é caro. Seria terrível se algum aluno não pudesse pagar por isso", disse o ministro. Até o momento, a escola não informou se pretende fazer mudanças depois da repercussão negativa.

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