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Uma desconhecida Kyoto à beira-mar

12.01.2018

 

Templos e santuários portentosos, tradições japonesas milenares, gueixas a deslizar por ruas estreitas de comércio, culinária sagrada e vegetariana: se isso é tudo o que você sabe sobre Kyoto, pode se preparar para mudar seus conceitos. A Kyoto que todos conhecem é uma grande cidade, a capital da província homônima, ex-capital do império japonês e atual guardiã de tradições e mistérios muitas vezes impenetráveis. Esta Kyoto, que tem atraído mais de 55 milhões de turistas nos últimos anos, é apenas a ponta de um iceberg.

 

Existe uma Kyoto à beira-mar, com uma costa recortada e lindas enseadas, uma Kyoto onde se come peixes e outros frutos-do-mar frescos e pela qual se trafega de lanchas por águas esverdeadas do Mar do Japão. Desta região chamada de Tango, um local é ainda pouco desbravado. Visitamos dois lugares que certamente vão atrair os viajantes mais curiosos: Amanohashidate e a vila de pescadores de Ine.

 

 

Um pulinho no paraíso

 

Ine é a ponta mais extrema de uma viagem que tem que começar por uma pontinha, ou melhor, uma faixinha de paraíso. Amanohashidate é, talvez, o local mais conhecido da região de Tango. E não é para menos. Uma estreita faixa de areia interrompe as águas da Baía de Miyazu e forma a bela e tranquila Laguna de Asoumi. A paisagem é tão exótica que o nome do local em japonês se refere a uma ponte mitológica que, um dia, teria caído do céu.

 

 

O passeio por aqui começa pelo Amanohashidate View Land, uma parque no alto de uma colina que fica atrás da estação ferroviária central da cidade. Teleféricos fazem o acesso ao local de onde se pode ter uma bela vista da faixa de areia e dos arredores. Também no parque fica uma espécie de ciclocarro suspenso, uma das muitas formas de desfrutar a bela vista.

 

 

Arborizada com cerca de 8 mil pinheiros, a faixa de areia de 3,3 quilômetros é um convite para passeios a pé e de bicicleta. Na entrada da faixa existem algumas lojas onde é possível alugar uma magrela e pedalar. O caminho é repleto de prainhas de areia, pequenos santuários e árvores muito bem cuidadas, com formatos que muitas vezes dá asas à imaginação. Antes da entrada na faixa, também vale a pena dar uma passadinha no templo Chionji. Já do outro lado da faixa, visite o Santuário Xintoísta Motoise Kono e o Parque Kasamatsu, também no alto de uma colina e acessível de teleférico. De lá de cima, é possível ter outra visão desse pequeno paraíso caído dos céus para o deleite dos reles mortais.

 

 

Casas com duas vagas na garagem

Mas a cereja do bolo da região fica a cerca de uma hora de ônibus de Amanohashidate. Quem desembarca em Ine, tem a impressão de que a localidade não difere em nada de outras vilas de pescadores do Japão. Casas de madeira dominam a paisagem. As ruas são tão estreitas, que fica até difícil de acreditar que foram feitas para os veículos estacionados nas garagens das residências. Mas não é preciso muito tempo de caminhada para chegarmos até uma enseada de onde se pode ver o outro lado das construções chamadas em japonês de funaya, palavra escrita com os caracteres para 'barco' e 'casa' ou 'espaço de trabalho'.

 

 

Os funaya são retangulares e costumam ter dois pavimentos. O andar inferior é usado como garagem para o barco, na parte virada para o mar e para o carro, na que é voltada para a rua. Também ali fica o local de trabalho dos pescadores, com ferramentas e utensílios para a pesca e para a manutenção dos ‘veículos’, além de varais usados para secar peixes que serão preservados. Já o andar superior é a moradia em si, com quartos e outros espaços privados da família.

 

As casas começaram a ganhar essa forma com a construção de estradas para conectar a vila a outras localidades. Isso foi em meados do Período Meiji (1868-1912). Os moradores queriam garantir o acesso à modernidade da estrada, sem perder a saída rápida para o mar. Isso resultou numa arquitetura que é única da região. Atualmente, são 238 construções do tipo que, desde o ano 2000, são tombadas como patrimônio cultural pelo governo japonês.

 

  

A maioria das residências ainda é ocupada por famílias, boa parte delas de pescadores. Porém, alguns dos funaya foram transformados em ryokan, as pousadas tradicionais japonesas. O local tem, ainda, pequenos restaurantes onde se pode provar a culinária da região, baseada no peixe fresco. Mas não chegue muito tarde. Os poucos restaurantes fecham às 14 horas.


Quem espera badalação certamente não vai curtir a calmaria de Ine. Mas se você quer sentir cheiro de mar, ouvir o canto dos pássaros, caminhar sem ter que disputar espaço com tanta gente, fazer um passeio curto de barco por águas tranquilas e ver um belíssimo pôr-do-sol vai encontrar um recanto em Ine, essa pequena vila de Kyoto que acabou virando cartão postal por acidente.

 

 

Depois de passar por Amanohashidate e por Ine, a volta para a caótica e agitada capital fica até mais difícil. Na lembrança, o visitante traz uma sensação de que conheceu uma Kyoto que funciona em outro tempo.

 

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