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Cinco filmes para ver o Japão com outros olhos

11.01.2018

Fazer uma lista de apenas cinco filmes japoneses me pareceu, a princípio, quase impossível. Isso porque são tantos e tão diversos os filmes que me marcaram, que eu gosto ou considero importantes de alguma forma. Mas, pensar em filmes cujas histórias me mostravam um Japão diferente dos estereótipos ou em obras fora do circuito de festivais e mais acessíveis ao público brasileiro fez a tarefa se tornar mais fácil do que eu imaginava.

 

Aliás, quando morei no Japão, percebi também que filmes como os que chegam ao Brasil não são anunciados na TV, não estão no topo das bilheterias e nem nas conversas de bar. Acabei gostando muito de comédias, coisa rara de ser ver por aqui até porque, talvez, o estilo necessite de um entendimento maior de certos comportamentos japoneses e isso só se consegue convivendo com eles.

 

São filmes, então, que falam do japonês médio, do meu dia-a-dia durante os quase 2 anos que passei por lá e, em experiências nas viagens subsequentes. Algumas obras são de antes do momento em que estive no país mas, ainda assim, falam sobre meus amigos e suas angústias, alegrias e cotidiano.

 

Bom dia!

(Ohayō / dir.: Yasujirō Ozu - 1959 - 1h34m)

 

Foi um filme que assisti antes de ir morar no Japão. Comprei em DVD no Brasil mesmo, coisa muito rara. Acredito que pelo fato de ser filme do Ozu, que chegou a ser relativamente popular no Brasil, a distribuidora tenha achado que valia a pena lançar. Fora dos grandes clássicos do mestre, como Era Uma Vez em Tóquio (1953) ou Pai e Fllha (1949), Bom dia! é uma comédia leve que revela muito sobre o japonês médio e o choque do contato com a tecnologia, no caso, a TV.

 

 

Naquele momento em que trilhava meus primeiros passos no conhecer do cinema japonês, o filme foi importante porque desmistificou o japonês samurai e exótico e me mostrou um cotidiano comum através dos olhos e atitudes da dupla de garotos que se recusa a falar até ter uma TV em casa e toda a problemática que esse silêncio causa. 

 

fragmento de Bom Dia! (dir.: Yasujirō Ozu)

 

 

A Luz da Ilusão

(Maboroshi no Hikari / dir.: Hirokazu Koreeda - 1995 - 1h50m)

 

Outro filme que vi antes de morar no Japão, já na trilha de diretores “famosos” no ocidente, no caso  Hirokazu Koreeda. Já tinha visto dele o Wandafuru Raifu (Wonderful Life), de 1998 que, apesar de posterior à A Luz da Ilusão, não estava disponível em DVD no Brasil. Por causa dele, passei a ir atrás de outros filmes do diretor. Encontrei A Luz da Ilusão e me deparei com o drama do suicídio pelo olhar de quem fica e também com uma das principais e mais marcantes características do cinema japonês: o final não-final.

 

 

Nós do ocidente, acostumados a ciclos fechados de histórias, criamos um estranhamento com esses finais abertos japoneses. Mas A Luz da Ilusão trouxe a noção exata desse conceito, desmistificando o suicídio como algo assim tão “comum” no país pois, sob a perspectiva de quem fica, nada é claro. Fica sempre uma interrogação sobre os motivos ou sobre quem é culpado... "Como fica daqui para a frente?" ou "como tocar a vida depois de tudo?" são algumas das perguntas que ficam. Então, como se dá um fim para uma história como essa? A Luz da Ilusão, apesar de não ser nenhum dos filmes “top” do diretor, é uma obra sensível que fala dessa faceta tão estereotipada da sociedade japonesa.

 

trailer de A Luz da Ilusão (dir.: Hirokazu Koreeda)

 

 

 

Lady Maiko

(Maiko wa Reidi / dir.: Masayuki Suo -  2014 - 2h15)

 

Esse diretor já tinha conquistado minha atenção com Shall we Dansu? de 1996, que ganhou remake americano com Richard Gere e Jennifer Lopez, e com Sore Demo Boku wa Yattenai (2007). O filme traz recado delicado, mas ao mesmo tempo crítico, com relação à tradição das gueixas e suas aprendizes, as maikos. Lady Maiko é um musical que apresenta, através do sonho de uma jovem, as nuances linguísticas do hōgen (dialeto) de Kyoto que, mais do que forma de falar, é uma forma de sentir e ver o mundo.

 

 

Concomitantente, o filme toca no sensível ponto da tradição das gueixas e o inevitável processo de modernização que tem se feito presente na contemporaneidade. Apesar de conhecer e saber da existência dos hōgen, ver o kyōtoben (o dialeto de Kyoto) ganhar vida nas telas, adquire ares diferentes que transcendem o linguístico e abarcam o dia-a-dia das pessoas e como a linguagem as afeta, para o bem e para o mal, já que a jovem protagonista é de Kagoshima (no sudoeste do Japão) e os locais duvidam que ela possa dominar a língua de Kyoto e, consequentemente, se tornar uma maiko

 

trailer de Lady Maiko (dir.: Masayuki Suo)

 

 

 

Kazoku wa Tsurai yo

(dir.: Yōji Yamada - 2016 - 1h48m)

 

Diretor da clássica série Otoko wa Tsurai yo, Yōji Yamada atualiza sua discussão da sociedade japonesa usando como base o elenco de Uma Família em Tóquio (2013), uma releitura que o próprio Yamada fez do clássico Era Uma Vez em Tóquio. A história gira em torno de uma família comum às voltas com problemas típicos do Japão e mesmo de outras sociedades: o cuidado com os pais idosos, a insatisfação com maridos, a vida escolar dos filhos etc. Seguindo a linha do filme do Ozu, Kazoku wa Tsurai yo faz uma crítica social ao mesmo tempo em que abre possibilidades de lidar com esses dilemas de forma cômica.

 

 

Escolhi o filme porque, além de poder reconhecer ali algumas famílias com as quais convivi, a obra nos permite apreciar um dia-a-dia relativamente típico de uma família japonesa. Pensando em Kazoko wa Tsurai yo como uma continuação de Uma Família em Tóquio, vemos então que a indiferença, que era o mote do drama, é substituída, na comédia, pelo excesso de diálogos já que, desta vez, os pais fazem parte do cotidiano.

 

O dois filmes expõem a problemática da família, com estratégias distintas, mas abordando pontos centrais na estruturação familiar japonesa: o patriarcalismo, o desaparecimento da tradição do oyakōkō (obrigação dos filhos de cuidar dos pais), as imposições da vida contemporânea que subjugam as afetividades e a crescente individualização de uma sociedade que foi constituída sobre o coletivo. Acredito que, apesar do filme estar inserido em uma construção cultural japonesa, muitas famílias podem identificar-se com ele.

 

trailer de Kasoku wa Tsurai yo (dir.: Yōji Yamada)

 

 

Kono Sekai no Katasumi ni

(dir.: Sunao Katabuchi -  2016 - 2h10)

 

Também é a forma como mostra o cotidiano que trouxe esta animação para a lista. Desta vez, o pano de fundo é o mesmo de outros filmes mais conhecidos como Filhos de Hiroshima (dir.: Kaneto Shindo, 1952) e Túmulo dos Vagalumes (dir.: Isao Takahata, 1988): o final da Segunda Guerra Mundial. 

O diretor Sunao Katabuchi e Fumiyo Kōno, autora do mangá que deu origem ao filme, apresentam um Japão que vive e sobrevive ao dias da guerra, sem se posicionar a favor ou contra — ou, quem sabe, indicando ambos posicionamentos. As obras mostram esse paradoxo no cotidiano de alegria e tristezas diárias do povo japonês da época. Vemos então um detalhismo de escritora e do diretor, aliado à delicadeza na hora de contar uma história que hoje se vê encoberta na sociedade japonesa contemporânea. Além disso, o filme é contundente quando coloca em pauta o papel da mulher nos anos da guerra, o militarismo e outras questões.

 

 

O filme comove ao nos conduzir junto com a jovem Suzu em sua jornada por uma nova vida, escolhida a princípio “para ela” e, depois, “por ela”, aceitando os desafios (e sofrendo com eles), mas tentando sobreviver e superar tudo com alegria, olhando sempre para frente, pois isso é viver. Kono Sekai no Kata Sumi ni é, sobretudo, um filme sobre viver as coisas pequenas do dia-a-dia e encontrar felicidade nelas, amadurecer, neste canto do mundo ou em qualquer outro por mais distante e abandonado que seja lugar onde se vive. É uma animação de resistência em tempos de lucros altos e pouco conteúdo.

 

trailer de Kono Sekai no Katasumi ni (dir.: Sunao Katabuchi)

 

Janete Oliveira é doutora pela PUC-RJ na área de Literatura, Cultura e Contemporaneidade. É coordenadora do projeto de extensão da UERJ, ELO Nihon - Estudos Midiáticos que divulga e produz conteúdo acadêmico sobre a produção midiática japonesa. Atualmente é professora assistente do Setor de Japonês do Instituto de Letras da UERJ.

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