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Por que decidi passar a virada do ano sozinho?

01.01.2018

 

 

São 10:46 do dia primeiro de janeiro. Estou dentro do trem-bala, retornando de Kyoto para Tóquio de uma das experiências de Ano Novo mais radicais da minha vida. Enquanto a paisagem escura deste dia nublado passa em alta velocidade pela minha janela, vou tentando digerir a minha experiência de ter decidido passar o Ano Novo sozinho.

Acho que para muita gente uma virada de ano solitária não deve ser novidade. Mas para as poucas pessoas a quem falei da minha vontade pareceu que eu estava para fazer alguma loucura. Pensei que era coisa só de brasileiro mas amigos japoneses também arregalaram os olhos. “Tadinho”, me disseram.

Não foi uma decisão tomada de supetão. Já venho acalentando a ideia há alguns anos. Cheguei muito próxima a ela na chegada de 2014. Foi quando eu e um grande amigo decidimos, meio de última hora, pegar um tíquete promocional e passar a virada nas montanhas de Wakayama, um dos lugares mais místicos do Japão. Não, a gente não estava atrás de nenhuma iluminação. Só queríamos sair da rotina e pegar uns banhos de águas termais. Foram horas de uma lenta viagem de trem e eu me lembro de ter desfrutado pela janela uma bela paisagem. Levamos uma garrafa de espumante para estourar e deixamos para comprar algo para comer no local. Acontece que não tinha nada aberto na vila onde nos hospedamos. Andamos quase uma hora atrás de alguma comida, um onigiri que fosse. Nada. Íamos passar o Ano Novo de barriga vazia.

Na hora da virada, outra questão. O que eu poderia fazer? E se eu quisesse gritar no silêncio mortal que tomava conta da pousada? Morando há alguns anos no Japão, sabia que a festa não costumava ser efusiva. Ainda assim... 

 

Ligamos a TV para acompanhar a contagem regressiva. Faltando poucos segundos, me veio não cabeça uma coisa absurda. Será que eu podia abraçar meu amigo? Ali que eu me toquei que já eram alguns anos de boa amizade mas a gente nunca tinha se abraçado. Estávamos ali, só os dois. Homens se abraçam, no máximo, em público. Num espaço privado, rola abraço por amizade? De volta à TV: 5... 4... 3... 2... 1!

 

— Feliz Ano Novo!

 

E, sim, meio sem jeito, tomei coragem e dei um abraço apertado! É meu melhor amigo, porra! Não tinha nem que estar pensando nisso. Por fim, estouramos o espumante e partimos para a cama. Cada um para a sua, claro. Foi o mais próximo, até então, de um ano novo solitário.

Quatro anos depois, a situação era outra. Eu estava fora de casa a trabalho, numa cidade gigante e sem aquele charme do interior. Talvez não faltasse comida mas não ia ter parceiro e não ia ter abraço depois da regressiva. Era eu comigo mesmo. 

 

Na véspera da noite de Ano Novo, visitei um amigo e parceiro de trabalho. Fizemos uma gravação rápida para um projeto em conjunto e ele me convidou para passar a virada num clube onde o companheiro dele estaria tocando. Não era má ideia. Clube, gente, bebida e regressiva animada... Nada me obrigava a passar o Ano Novo sozinho. Ainda dava tempo de desistir.

À noite, voltei ao bar onde o meu amigo trabalha, depois de ter feito umas fotos para uma reportagem de turismo. Uma grande amiga deu as caras também. Fazia tempo que a gente não se via. Penalizada com o meu provável Ano Novo solitário, ela me fez um convite irresistível: colar num templo pequenininho perto da casa dela, onde os caras faziam uns rituais que eu ia adorar ver e registrar. Fiquei super tentado, claro, mas disse que ia pensar. Nada me obrigava a passar o Ano Novo com outras pessoas.

O dia seguinte, o último do ano, foi uma maravilha. Um belo passeio na região montanhosa de Kurama, no norte de Kyoto, me trouxe as lembranças daquele Ano Novo de 2014. Verde, templos tranquilos, caminhada ao som do canto dos pássaros, temperatura amena, águas termais e quietude. Aos poucos, fui me reconectando com aquela experiência anterior. Estava preparado para voltar para o hotel e passar o meu primeiro ano novo completamente só.

Cheguei no quarto exausto, fiz um lanche, preparei uma mensagem de Ano Novo nas redes sociais, conversei longamente com o meu amor pelo telefone e apaguei a luz. Eram 22:16 quando eu desliguei o telefone celular. Coloquei o tablet no chão do quarto, fechei os olhos e dormi.

***

Às 6:48 religuei o telefone. Já estávamos em 2018! Muitas mensagens lindas de Ano Novo e alguns telefonemas não atendidos. Fui respondendo calmamente a cada um, enviando e recebendo boas vibrações. Uma das mensagens era de um dos meus melhores amigos, hoje tão fisicamente distante, lá no Brasil. Depois de termos trocado as saudações habituais de Ano Novo, contei para ele a experiência da seguinte forma:

Nesse ano fiz um teste. Passei sozinho. Foi ótimo! Não que passar com outras pessoas também não seja ótimo. Mas queria saber como é a virada quando você não pode ter por perto alguém que te ama ou alguém que você ama. Bem, não senti falta de nada, nem diferença substancial alguma. Aliás, lá no fundo, o Ano Novo em si é só uma mudança numérica. O dia de hoje é só uma continuação do dia de ontem, assim como o ano que começou é uma continuidade do que está se acabando. E o amor? O amor não depende da presença física. Nem no Ano Novo, nem em dia nenhum. O amor perdura porque ele, assim como o tempo, não para de existir. Um beijo no seu coração!

Te amo, amigo.

***

De volta ao trem-bala, acabamos de sair de Nagoya. O sol, agora, brilha forte na janela, tentando aparecer dentre as nuvens. Acho que ninguém comemora o Ano Novo melhor que nós, brasileiros. Calor, praia, boa comida e bebida, fogos, festa e muitos abraços. Mas acho que seria impossível passar um Ano Novo solitário e tranquilo aí. Temos uma necessidade muito grande de estar cercado de gente e, com isso, sofremos muito mais quando nos descobrimos sós. De algum modo, estar no Japão fez a minha relação com a solidão mudar muito. A palavra que, segundo Paulinho da Viola é ‘lava que cobre tudo’, ganhou para mim uma nova conotação que tem muito mais a ver com descoberta que com ‘desilusão’. Que 2018 de muitas realizações e descobertas para todos nós! 

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