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Por que a escolha do ‘kanji’ do ano é tão importante para os japoneses?

15.12.2017

imagem: © Templo Kiyomizu-dera

 

Kanji é o nome que se dá no Japão aos logogramas que vieram da China e são usados na escrita japonesa, juntamente com os silabários hiragana e katakana. Os logogramas têm uma vantagem com relação às escritas fonéticas por trazerem consigo significados. Quem lê chinês mas não entende japonês pode muito bem supor o significado de boa parte das palavras apenas pelos caracteres utilizados. Portanto, os kanji oferecem uma possibilidade de compreensão que vai além da leitura fonética.

 

Desde 1995, a Sociedade pela Proficiência do Kanji Japonês faz uma enquete perguntando qual o kanji que representa melhor o ano que está se encerrando. O resultado é divulgado no dia 12 de dezembro, o Dia do Kanji, no Kiyomizudera, um dos templos budistas mais icônicos do país. A divulgação conta com um ritual em que um monge especialista em caligrafia escreve o caractere mais votado com um fude (foto acima) — o tradicional pincel caligráfico — na frente das câmeras de TVs e jornalistas de todo o país, além de visitantes que vão até Kyoto para participar da cerimônia. Seleções semelhantes são feitas em outros países como a Alemanha, o Reino Unido e os Estados Unidos que escolhem, cada um à sua maneira, a palavra que representa o ano que está acabando.

 

 

Para 2017, os japoneses escolheram o kanji 北 (lê-se kita) que significa ‘norte’. A escolha de um caractere tão simples pode até soar estranha. Ainda mais se comparamos com anos anteriores, nos quais os escolhidos traziam imagens fortes. No ano passado, por exemplo, o escolhido foi (kin, ouro). Das inúmeras medalhas douradas amealhadas pelos atletas japoneses nas Olimpíadas do Rio até o cabelo loiro (金髪, kinpatsu) do então presidente-eleito Donald Trump, 2016 foi dourado, na opinião dos japoneses. Aliás kin já pode até pedir música no Fantástico. Já foi escolhido três vezes como o Kanji do Ano e é o único selecionado mais de uma vez até o momento.

 

Em anos anteriores, o caractere eleito representou reviravoltas políticas e econômicas no Japão e no mundo. Em 2015, por exemplo, o atentado na casa de shows Bataclan em Paris, a ameaça de bomba no Santuário Yasukuni em Tóquio e a revisão da Lei de Segurança Nacional pelo primeiro-ministro Shinzo Abe colocaram (an, segurança) nas cabeças. Podemos dizer, também, que Abe emplacou seu segundo kanji em 2014, quando entrou em vigor o aumento de 5% para 8% no imposto sobre o consumo, causando efeito em cascata nos preços, que raramente sofrem alterações no Japão. Naquele ano, não é preciso dizer que o kanji eleito foi o que representa impostos, (zei).

 

Grandes tragédias naturais também acabam sendo lembradas na escolha. Em 2011, um grande terremoto seguido de um tsunami devastou a costa nordeste do país causando bilhões de dólares em prejuízos e resultando em mais de 16 mil mortes. O mundo inteiro se levantou em ajuda às vítimas da tragédia e, por isso, (kizuna, laços) foi o kanji daquele ano. Casos semelhantes foram ocorreram em 1995 (, shin/tremor) e 2004 (, sai/desastre).

 

 

A discreta monarquia japonesa foi lembrada em dois anos consecutivos. A Princesa Nori, filha do atual casal imperial se casou num ano em que casos de assassinatos em família ganharam as manchetes. Pela presença ou pela falta, (ai, amor) foi o kanji de 2005. O ano seguinte viu o nascimento do Príncipe Hisahito, em meio a preocupações acerca da sucessão do Trono do Crisântemo já que, fora os dois filhos já adultos, todos os demais herdeiros diretos do casal imperial são mulheres que, por lei, não podem ser coroadas. Por isso, (inochi, vida) foi eleito o kanji de 2006.

 

imagem: Agência da Casa Imperial Japonesa

 

Mesmo com a fama de fechados para o resto do mundo, os japoneses também se sensibilizam com temas de grande repercussão internacional. A crise financeira que devastou os mercados asiáticos em 1997 coroou (, colapso) como o caractere daquele ano. Os ataques às Torres Gêmeas de Nova Iorque e a ofensiva norte-americana no Afeganistão levaram os japoneses a escolher (sen, guerra) como o kanji de 2001. A esperança com a eleição de Barack Obama, o primeiro negro a ocupar a presidência dos Estados Unidos, também sensibilizou os japoneses que, em 2008, escolheram o caractere (hen, mudança) para representar o ano. Já em 2010, quando o mundo assistiu incrédulo e apreensivo o caso dos mineiros chilenos soterrados e felizmente resgatados com vida depois de 69 dias fez com que os japoneses elegessem (sho, calor).

 imagem: © Templo Kiyomizu-dera

 

O noticiário internacional também foi, de certo modo, responsável pela escolha de /kita, norte, como o kanji de 2017. Conturbado desde o início do mandato de Donald Trump, o ano viu as provocações entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte escalarem. Trump e o regime de Kim Jong-un trocaram farpas e ameaças até na assembleia anual da ONU na qual o presidente norte-americano chamou o líder norte-coreano de ‘homem-foguete’ e ameaçou aniquilar completamente a Coreia do Norte.

 

Pyongyang não deixou as ameaças sem resposta. Não somente intensificou os testes de seu programa balístico como, em duas ocasiões, fez dois de seus mísseis atravessarem o território japonês e caírem no mar do norte do Japão. Além de tudo, nos últimos meses do ano, barcos de pescadores norte-coreanos começaram a aparecer aos montes na costa japonesa, um deles com toda a tripulação morta. As aparições são atribuídas à exigência feita pelo governo de Pyongyang aos pescadores que se aventurem em águas cada vez mais distantes em busca de pescado. Com barcos precários, muitos pescadores acabam à deriva e surgem na costa japonesa. 

 

imagem: KCNA

 

Mas essa não é a primeira vez que a relação com a Coreia do Norte influencia os japoneses na escolha do kanji do ano. Num contexto completamente diferente, em 2002, japoneses e norte-coreanos iniciaram rodadas de conversação que levaram ao retorno ao Japão de cinco dos quase vinte — a Coreia do Norte alega que o número correto seja 13 — cidadãos japoneses que haviam sido abduzidos pelo regime de Pyongyang.

 

Um dos retornados desta leva foi Hitomi Soga, sequestrada aos 19 anos pelos norte-coreanos, juntamente com sua mãe, em 1978. No país, Hitomi se casou com o desertor norte-americano Charles Jenkins e teve com ele duas filhas. Jenkins e as meninas reencontraram-se com Hitomi em 2014, na Indonésia. Já no Japão, o ex-soldado foi julgado e recebeu uma pena branda e dispensa com desonra. Jenkins faleceu no dia 11 de dezembro, 1 dia antes do anúncio de kita como o kanji do ano e em meio ao aumento das tensões entre o Japão e a Coreia do Norte, herança mal resolvida da atuação japonesa na Ásia durante o final do século 19 e a primeira metade do século 20. Que 2018 seja o norte que conduza o mundo ao diálogo não à guerra.

 

0:43 | Anúncio do kanji do ano no Templo Kiyomizudera em Kyoto (fonte: ANN) 

 

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