• Felipe de Alcântara

Tokusatsu: que tal olhar outra vez?

Atualizado: Jun 25



Pouca gente deve conhecer o termo tokusatsu [lê-se "toku-satsu"] mas muitos vão saber do que se trata se eu disser que são os “seriados de super-heróis japoneses” como O Fantástico Jaspion, Esquadrão Relâmpago Changeman e Jiraiya, que certamente soarão familiares para toda uma geração de brasileiros. Só que essa explicação é meio ruim porque nem dá o significado da palavra e nem descreve direito o que ela representa.


Tokusatsu (特撮) é abreviação de tokushu satsuei, ou seja, “filmagens especiais” em japonês. O termo foi cunhado em 1958 para traduzir o conceito hollywoodiano de SFX (efeitos especiais) para o público japonês mas acabou virando sinônimo de uma gama de obras de cinema e televisão com uma cara totalmente japonesa. O mais clássico representante do gênero tokusatsu é o famosíssimo Godzilla, motivo pelo qual a explicação “seriados de super-heróis” não é muito precisa. Mesmo assim ela tem razão de ser já que, depois de uma onda de filmes de monstros gigantes, o que veio para ficar até hoje de forma quase ininterrupta foram os super-heróis que surgiram mais tarde.


Dentre os tokusatu de heróis, há três “linhas” em especial que podem ser consideradas parte inseparável da cultura pop japonesa: o gigante Ultraman, da Tsuburaya Productions; os grupos de guerreiros coloridos Super Sentai, que têm como representação maior no mercado ocidental os Power Rangers; e os heróis solo Kamen Rider, ambos da Toei Company.


Mas não vim aqui dar explicações sobre cada linha de heróis. Como sei que existe um certo

desprezo pelo tokusatsu fora do seu nicho de fãs devido à “precariedade” percebida nas

produções vim propor um olhar mais informado para as séries de super-heróis, com foco em Super Sentai. Conhecendo as possíveis influências por trás de certos elementos, você talvez aprecie coisas que, de outro modo, parecem sem sentido.


Para começar, arrisco dizer que a fonte da qual os tokusatsu de super-herói mais bebem é o

teatro clássico japonês, especificamente o kabuki mas, também, um pouco do nô. O teatro kabuki, aquele com as perucas e maquiagens inconfundíveis, usa diversos efeitos práticos e mecanismos nos palcos para causar impacto na plateia. Existe até um termo para isso: keren.


Os exemplos mais chamativos de keren são o chuunori (“corrida no ar”) e o hayagawari (“troca rápida [de roupa]”). O pequeno vídeo abaixo mostra como se faz o chuunori.



Depois de vê-lo, fica fácil entender de onde vem a “estética” do soragake (galopada no céu),

golpe do personagem Hurricane Red (da série Ninpuu Sentai Hurricaneger), que você pode ver no vídeo abaixo.



Ou, ainda, o giro do robô gigante dos Flashman, o Flash King, atrevidamente desafiando as leis da física neste vídeo aqui.



Robôs gigantes e os bonecos mecânicos ancestrais

Por falar em robôs gigantes, durante muitos anos as famosas cenas de gattai (união), em que

diferentes veículos se unem para formar um robô, usaram miniaturas que se articulam de

vários jeitos para se encaixar umas às outras. Veja a cena de formação do Change Robô, por

exemplo.



Mesmo hoje, com bastante uso de computação gráfica, cenas ainda seguem presentes nos tokusatsu de heróis. Além de serem ótima propaganda para os brinquedos licenciados, as cenas que se detêm nesses movimentos mecânicos me remetem à tradição japonesa dos karakuri, bonecos automatizados que existem desde o Japão antigo. Tanto que o robô da série Ninpuu Sentai Hurricaneger, mencionada acima, até se chama Gigante Karakuri Senpuujin. Pessoalmente, a satisfação que me dá ver o vídeo acima e o vídeo abaixo vem do mesmo lugar.



Aliás, usando ainda Ninpuu Sentai Hurricaneger como exemplo, e pegando o gancho do tempo dedicado à cena de formação dos robôs, acho que todo mundo que já viu tokusatsu fez alguma piada sobre os vilões ficarem esperando as cenas de transformação, ou aquelas em que o personagem diz o nome e alguma frase de efeito. Este tipo de cena se chama nanori, e vem da cultura guerreira antiga, em que era praxe dizer seu nome, sua afiliação e o que você defendia em voz alta diante do seu adversário. E era considerado condenável atacar seu adversário enquanto ele fazia seu nanori.


Mas os tokusatsu atuais não se passam na época desses guerreiros. Então, o que explica a

aceitação e o gosto por esse tipo de cena, além do fato de ser algo consagrado no teatro

kabuki também? Vou me atrever a relacionar isso ao conceito japonês de MA, que a Piti

Koshimura abordou muito bem no podcast dela. (Aliás, ouçam!)


O conceito de “tempo suspenso” é o que dá a licença para que essas cenas aconteçam e sejam aceitas. Ainda que alguns seriados modernos façam piada com elas ocasionalmente e que haja cenas de transformação dinâmicas, em meio a batalhas, as cenas longas – com tempo suspenso e até o cenário alterado para algo irreal, às vezes – continuam lá e seguem sendo apreciadas.


É difícil entender isso dentro da lógica hollywoodiana que domina o nosso imaginário mas o tempo dessas cenas é um tempo próprio, descolado do restante do episódio. Não acrescentam nada à história, estão ali só para efeito dramático, para criar uma expectativa pela luta que vai se seguir. Pode soar um recurso desgastado ao assistir um episódio por dia, como fazíamos no Brasil, mas convém lembrar que a transmissão dessas séries no Japão sempre foi semanal.


Para mim, o exemplo mais claro de cena de nanori com tempo suspenso é essa do Ninpuu Sentai Hurricaneger.



Aliás, aqui as referências ao kabuki são óbvias: o contrarregra batendo madeiras no chão para fazer barulho e enfatizar a cena (tsuke, em japonês), os movimentos dos personagens ao se apresentarem e o jeito de projetar a voz, as poses onipresentes nessas séries (chamadas mie no kabuki) e a própria luta que vem em seguida, com movimentos bem definidos e coreografados, muito diferente do que seria uma luta real e muito diferente das lutas hollywoodianas, que também não são realistas para quem entende de artes marciais, mas que buscam ser verossímeis para o público em geral.


Máscaras e o nô

De produção mais simples, o nô é uma forma teatral muito diferente do kabuki. Aqui de usa-se máscaras em vez de maquiagem no rosto dos atores. Percebo que é do nô que vem o design das máscaras de tokusatsu. O ângulo em que o ator dentro do traje posiciona o rosto, a iluminação, o tipo da lente usado na filmagem (que pode dilatar ou estreitar o rosto) são coisas que ajudam a dar “expressão facial” às máscaras, que costumam ser bem simples e neutras em linhas gerais, justamente para que seja possível o espectador projetar ali a emoção que a cena sugere. Veja neste "teste" feito pela conta Twitter @wabisabi com a máscara do Lupin Red, da série Kaitou Sentai Lupinranger VS Keisatsu Sentai Patranger.


De modo mais sofisticado, as máscaras do teatro nô são feitas também em linhas gerais

simples para que a iluminação do palco e o ângulo “expressem” a emoção que a cena pede, como você pode ver abaixo na montagem feita pela escritora Jonelle Patrick.



Enfim, há muito mais detalhes sobre tokusatsu que exigem um pouco de conhecimento da cultura japonesa para serem compreendidos. E outros que não, como o fato de os capacetes

de Kamen Riders terem quase todos algo que remete a lágrimas abaixo dos olhos – uns de

forma discreta, outros nem tanto – já que a origem de um Kamen Rider é sempre triste: nas

primeiras séries era sempre alguém que perdeu algo valioso e, até hoje, a origem dos poderes de um Rider é sempre a mesma do mal que ele combate. Para terminar, a quem gostaria de fazer uma leitura mais aprofundada, recomendo muito o texto Como fazer um programa de super heróis de tokusatsu do blog Casa do Boneco Mecânico. Vale a leitura.


Felipe de Alcântara é um paulistano formado em Letras tentando viver no interior do Japão. Coordenador de Relações Internacionais em Shimane pelo JET Programme. Twitter: @felipe_alnas.

337 visualizações
  • White YouTube Icon
  • White Instagram Icon

© 2017 por Direto do Japão/Roberto Maxwell. Todos os direitos reservados.