• Roberto Maxwell

Sexo e intimidade na quarentena: brazucas que vivem no Japão enviam seus relatos

Atualizado: Mai 20



Dentre as notícias de suspensão do estado de emergência (no Japão) e da demissão de mais um ministro da saúde (no Brasil), um assunto começou a ganhar corpo nas redes sociais. Não mais que de repente, uma porção enorme de gente começou a falar de sexo na pandemia. Já haviam sido ventiladas histórias de que os porn tubes da vida estão tendo recordes de audiência. Também rolou o papo de que shows eróticos online são o novo grande negócio da rede. Era como se, de repente, todo mundo tivesse descoberto que a gente precisa muito mais de oxitocina do que de cloroquina.


Em termos afetivos, não posso me queixar desse momento. Estou muito bem acompanhado dos meus dois roommates e do meu parceiro, uma coisa que se eu contasse para o meu "eu" de 20 anos de idade ia ser mais difícil de acreditar do que a própria pandemia. Mas poucas vezes me senti tão mal quanto no dia em que o meu parceiro me negou um beijo por causa do "vírus".


Acontece que eu sempre acho a vida dos outros mais interessante que a minha. E, quando o assunto é sexo e intimidade, a experiência humana é tão vasta que a única maneira da gente captar pelo menos uma parte disso é perguntando. Foi o que eu fiz. Coloquei um apelo nas minhas redes sociais convocando o pessoal a contar como a pandemia estava afetando a vida sexual. Não esperava receber muita coisa mas, por incrível que pareça, teve gente que decidiu se abrir. Como não dava para conversar com todo mundo, escolhi apenas algumas das pessoas para um papo mais aprofundado. Todas elas têm em comum somente o fato de serem brasileiras que moram no Japão.


A ideia inicial era fazer uma matéria caretinha, com citações entre aspas e tal. Mas os relatos foram tão fortes que eu achei um desperdício não compartilhá-los com vocês na íntegra. Os nomes e alguns dos fatos pessoais foram alterados como forma de preservar a intimidade dessas pessoas. Mas os relatos dão conta de como a pandemia afeta as pessoas de forma muito profunda, íntima e particular. Tudo isso ao mesmo tempo que ela reflete a relação que estabelecemos com a sociedade que nos cerca. Então, muito do que é a vida das pessoas estrangeiras no Japão vai estar em evidência de várias maneiras nestes relatos. Posso dizer para vocês que o que eu aprendi com essa experiência foi que, no final das contas, independente de onde estivamos, somos seres extremamente sociais. Somos nós mesmos, através das relações que estabelecemos, o sustentáculo da nossa condição humana. Confira.


Antonio, 43

"Estou me sentindo terrivelmente solitário e isolado."

Primeiro, eu achei que seria ótimo ficar em casa o tempo inteiro. Depois, bateu uma inquietação e medo. Agora, entrei numa rotina diária em que me exercito, trabalho, leio e assisto filmes. Ou seja, procuro manter a minha mente ocupada. Sair, eu só tenho ido ao supermercado. Estou me cuidando porque, pelo fato de eu ser um estrangeiro morando sozinho no Japão, me preocupa a possibilidade de adoecer, ficar de cama e não ter ajuda.

Convenhamos que não é nada fácil encontrar relacionamentos aqui na Terra do Sol Nascente. Especialmente, para mim, que moro em uma cidade relativamente pequena. Então, não é uma coisa que role com muita frequência e, agora, eu que não me sinto à vontade de ter nada. No momento, não estou buscando por isso, nem marcando nenhum encontro, como fazia antes. Eu me empenhava em marcar encontros, muitas vezes usando mídias sociais, ir a dates, convidar pessoas para jantar comigo aqui em casa.

No início da pandemia, eu nem me preocupei. Estou há anos no Japão e nunca tive gripe, nem me vacinei. Então, estava tudo normal para mim. Até fiz uma viagem para Okinawa. Quando as notícias da Itália começaram a ficar mais em evidência, e depois que as Olimpíadas foram canceladas e o primeiro-ministro decretou estado de emergência, eu parei tudo. Até então, eu estava indo para a academia, também.

Agora, estou me sentindo terrivelmente solitário e isolado. Bem mais que antes. Mas eu prefiro evitar do que me arriscar e, por isso, me mantenho ocupado o máximo possível. Além disso, masturbação é útil nesses momentos. Mas também faço yoga, que ajuda muito a aliviar as tensões. No fundo, a falta não é necessariamente de sexo e orgasmo. É de intimidade e contato humano.

O problema maior é a ansiedade que tudo isso gera. Pessoas lidam com ansiedade de várias formas: umas bebem em demasia, outras comem em demasia, outras têm sexo em demasia. Para que eu não enlouqueça e fique apenas pensando em sexo e intimidade, tive que arrumar alternativas para lidar com a situação. No meu caso, fui introduzido a exercícios respiratórios para aliviar a tensão e a respiração e isso me ajudou bastante. Às vezes, eu ponho música e danço para suar e relaxar o corpo.

Essa experiência está me ensinando que o mais importante de um relacionamento é a convivência e a companhia. Sexo é importante e bom, mas não é tudo. Vivemos em uma sociedade que é demasiadamente sexual e tudo é sobre sexo. As pessoas procuram compensar as frustrações do dia com sexo e diferentes parceiros. Se eu estou sobrevivendo a essa temporada, sem enlouquecer, significa que, no futuro, quando for voltar à ativa, vai ser uma nova experiência. Paquerar é ótimo, namorar é melhor ainda. Mas nada como desenvolver intimidade com alguém.

Porém, quando acabar isso tudo, a primeira coisa que eu quero fazer é me conectar com os meus amigos. Neste isolamento, sinto muito a falta deles, especialmente de abraçá-los. Quero poder conversar com eles sem máscara e sem medo de contaminar ou de ser contaminado.



Angélica, 32


“Aqui em casa está bem mais animado que antes.”

Meu marido trabalhava das 8:45 até a meia-noite, de segunda a sexta-feira. Durante o ano passado, ele trabalhou inclusive no sábado ou no domingo. Eu fiquei estudando japonês, praticando yoga e, de vez em quando, via uma amiga. Na verdade, eu já ficava bastante em casa. Sou formada em gastronomia e estou aproveitando para estudar cozinha japonesa pelo YouTube.


Aos finais de semana, quando meu marido tinha folga, a gente viajava. Geralmente, pegávamos um carro e íamos pelos arredores de Tóquio. A gente sempre inventava alguma coisa para dar uma voltinha. Antes da pandemia, na prática, o nosso único tempo juntos era aos fins de semana.


Meu marido é japonês e a gente morou 7 anos juntos no Brasil. Tempo era o que não faltava. Só que, no Japão, é como se a família não importasse para as empresas, independente do que o funcionário pense sobre isso. No Brasil, nossos horários de trabalho eram respeitados, tínhamos bastante tempo juntos, final de semana livre.


“Se, no escritório, todos trabalham até de madrugada, eu preciso fazer igual”, é assim que muita gente age. Meu marido não pensa assim mas ele foi exposto ao ocidente ainda adolescente. Então, ele consegue observar a situação e repensar, para melhorar, ser mais assertivo. Mas não adianta porque o resto do pessoal não se interessa. Meu marido prefere trabalhar com estrangeiros do que com japoneses.


Por causa da pandemia, ele passou a trabalhar de casa e a rotina de trabalho deu uma boa reduzida. Ele tem parado lá pelas 8 da noite. Então, sobra tempo para descansar, relaxar, ver um filme… Acho que era o que a gente queria e não conseguia antes.


A gente tem dormido mais cedo, dormindo mais tem mais energia. Temos namorado com mais frequência, passamos de uma vez a cada duas semanas para duas vezes por semana, mais ou menos.


Para mim, isso tudo trouxe mais proximidade, mais oportunidade da gente falar de sentimentos e mais confiança em mim mesma, como mulher. Eu trabalhava no Brasil e, desde que vim para cá, estou nos afazeres domésticos e estudando japonês de vez em quando. Acho que essa falta de confiança que eu estava sentindo vem de eu não estar trabalhando e não ser mais independente.


Espero que essa pandemia cause algum impacto na relação dos japoneses com o trabalho e com a família. Mas, sinceramente, acho muito difícil. Pelo que vejo, os japoneses, em geral, não param para pensar sobre a vida deles, para se auto observar, para pensar no que gostam ou no que não gostam, no que preferem… Eu percebo que eles só seguem indo, do jeito que foram ensinados a viver. Eles não questionam as coisas, numa tentativa de melhorar a situação para eles próprios. Só seguem indo, do jeito que foram ensinados a viver.



Juliano, 28


"Sou muito levado pela imaginação."

Estou num relacionamento à distância e, obviamente, a pandemia nos impede o encontro, até porque ele está em outro país. Ainda assim, com ou sem pandemia, nosso relacionamento é monogâmico e exclusivo. Então, não há a possibilidade de buscarmos outros parceiros. O que nós temos feito é a prática do sexo virtual, uma vez ou outra, mais como uma forma de manter o jogo sensual aceso, de forma despretensiosa.


Como eu falei, ele não mora aqui no Japão e eu o conheci quando ele estava viajando por aqui. Faz mais ou menos quatro meses. Acabamos nos envolvendo e começando um namoro. Viajamos juntos depois de um tempo mas, com três semanas de viagem, o vírus atingiu status de pandemia. Isso acabou fazendo com que a gente voltasse antes do planejado, cada um para a sua casa. Estamos na expectativa de que as coisas melhorem para que a gente possa se ver novamente. Mas, mesmo que à distância, me sinto mais seguro tendo ele.


No começo, eu sugeri o sexo virtual, meio que de brincadeira. Eu não sabia se ele ia topar. Ele é mais velho e mais sério. E, apesar de eu não ser o primeiro relacionamento à distância dele, pelo que ele me diz, seria a primeira vez. Mesmo meio envergonhado, ele se empolgou e rolou e tem rolado. Como sou eu que sempre sugiro, fico com medo de estar incomodando. Ele me disse que não se incomoda mas que não partiria dele o convite.


No período em que não estávamos nos vendo, mesmo antes da pandemia, já praticávamos sexo virtual. Aliás, até mais que agora. No começo, era um pouco mais casual. Agora, tento manter algo sem muita pressão. Geralmente, eu peço para ele me levar ao banho. Aí, ele já entende. Mas ele não me avisa quando vai tomar banho. Então, eu que costumo falar para ele que, se ele tiver afim, pode me ligar na hora que for pro banho.


Ele não é meu primeiro relacionamento à distância e eu já era adepto à prática do sexo virtual, inclusive com não namorados. Acho que o importante é se desprender, assim como no sexo presencial. Não adianta ficar encanado, achando que tá fazendo algo ridículo. No meu caso, acho que tem duas questões: talvez eu tenha uma tendência narcisista e sou voyeur. Por isso eu já pratiquei com diversas pessoas, mesmo não estando em relacionamento.


Mas, no caso do relacionamento, eu realmente encaro essa interação virtual como real, assim como uma ligação me faz sentir mais próximo do meu namorado, da minha família. Sou muito levado pela imaginação. No caso, para mim, fazer sexo virtual com alguém é bem diferente de simplesmente assistir um filme. É aquela coisa: na prática, não passa de masturbação. Mas o fato de estarmos fazendo juntos, um para o outro, torna completamente diferente de fazer sozinho. E se é com a pessoa que eu amo, é ainda melhor, assim como o sexo presencial é mais prazeroso quando envolve sentimento.



Mariana, 25


"Nunca na minha vida eu tive tanta vontade de transar."

Moro no Japão desde janeiro do ano passado. No momento, estou solteira. Meu último e único relacionamento sério terminou há 4 anos. Namorei por 4 anos, terminei e nunca mais namorei sério.


Logo que eu terminei, usei o Tinder por um tempo no Brasil. Tive alguns encontros mas tudo casual. Com o tempo, cansei do app e só tive relacionamentos casuais com pessoas que conheci em festas etc. Em 2018, estive muito focada no eu trabalho e nos preparativos para vir para o Japão. Então, não me envolvi com ninguém.


Assim que cheguei no Japão, decidi instalar o Tinder novamente, por curiosidade de saber como seria aqui. Conheci alguns rapazes mas, novamente, muito casual. Dois deles eram estrangeiros que acabaram virando ficantes. Mas ambos já estavam perto da hora de ir embora do Japão. Cheguei até a me apaixonar mais seriamente pelo último deles, com o qual eu me relacionei em setembro do ano passado. Mas ele foi logo embora. Tenho pouca sorte no amor.


Tinha cansado dos aplicativos mas, este ano, antes da pandemia, eu dei uma chance novamente. Na verdade, eu usei mais o Bumble que é mais legal que o Tinder. A maioria são estrangeiros, poucos japoneses usam. Mas ele tem mais informações iniciais do usuário, o que torna as coisas mais interessantes. Eu estava conversando com alguém por lá que, potencialmente, poderia ir adiante. Seria algo casual também mas, daí, veio a pandemia.


Há dois meses, a ficha caiu que a coisa não era simples, com a situação na Itália e, depois, com o aumento do número de casos no Brasil. Aqui, a universidade cancelou o início do semestre e proibiu os alunos de irem até o campus, mesmo para pesquisa. Depois, a universidade fechou para os professores. Isso faz um mês.


Ele insistia muito que a gente se encontrasse, mesmo com as restrições. Mas eu não quis abrir mão do isolamento social para isso. Acho que ele não estava muito preocupado com a pandemia. Parece ser daquelas pessoas que não ligam para a gravidade da situação. Ele mora em uma província vizinha e dizia que tinha pouca gente viajando e que, por isso, não teria risco de se contaminar.

Meu estado emocional está péssimo! (Risos) Particularmente, essa semana eu estou me sentindo muito mal, muito ansiosa e carente. Triste. Esses sentimentos não são resultantes do isolamento social mas estão sendo agravados por ele. Eu sou uma pessoa muito social e já faz um mês que não vejo meus amigos, nem nada. Acho que essa semana isso tá se manifestando mais.

Eu comecei a fazer terapia à distância, com uma psicóloga brasileira. Para suprir a carência, tenho falado mais com amigos e família através de ligações de vídeo. Mas a presença física é insubstituível. Então, estou com muita carência de afeto. Sinto que preciso muito abraçar alguém que eu amo. Aqui no Japão, eu sempre me senti assim, na verdade. As pessoas são mais distantes, né? E eu estou sozinha. É sempre complicado. Mas com os os amigos estrangeiros, dava para dar uma aliviada.

Na questão específica do sexo, de algum modo, a falta desse contato íntimo também está me deixando assim. Eu acho que nunca na minha vida eu tive tanta vontade de transar. Nunca consumi tanta pornografia quanto agora. Masturbação é quase diária. Não era assim antes.

Não vejo o tesão e a masturbação como se fossem coisas negativas. Mas eles não substituem o relacionamento com alguém. Então, é algo que quebra o galho mas não sacia a minha sede. Quero resolver isso. Quero transar com alguém. O difícil é encontrar esse alguém.


Hideki, 35


"Optei por não segurar a onda e fui encontrar uma pessoa."

Tenho duas crianças. Por causa da pandemia, elas ficaram sem aulas e, por conta disso, a minha esposa resolveu ir para a casa dos pais, em outra província, e ficar por lá durante esse período. Por conta do trabalho, eu precisei ficar e foi basicamente nesse período que rolou esse encontro. Eu estava sozinho em casa e chegou um momento em que, realmente, optei por não segurar a onda e fui encontrar uma pessoa.


Eu estava tentando ficar em casa a maior parte do tempo. No Japão, a gente não chegou a ter um lockdown propriamente dito. É uma quarentena light. Então, meio que diariamente eu saía. Estando sozinho em casa, então, era bastante comum eu almoçar em um restaurante. Acabava que eu almoçava com uma boa frequência fora ou saía para comprar comida já que na minha cidade não tem serviços de aplicativo. Fora isso, eu saio para ir para o trabalho. Eu fiquei um tempo de folga do trabalho e, naquela semana, eu saía somente para fazer compras e para comer fora mas, enfim, tentava ficar em casa a maior parte do tempo.


Essa pessoa é alguém com quem eu já me relaciono há algum tempo. Ela, como eu, também tem um parceiro fixo. Ela não é casada mas tem um namorado propriamente dito. Enfim, pelo jeito, parece que o rapaz não a satisfaz. A atividade dela está entre as consideradas essenciais. Então, ela estava saindo para trabalhar. A gente se encontrou para jantar, um ritual que já rolava antes. Mas, por causa da pandemia, a gente teve que sair um pouco mais cedo porque estava naquele regime dos bares fecharem às 8 da noite. Então, saímos para beber e, depois, eu pernoitei na casa dela.


Antes de sair, eu medi a minha temperatura. Apesar de ser um cuidado simples, é algo que eu não faria em outra situação. Além disso, eu decidi ir de carro para não pegar transporte público. O tempo todo me passou pela cabeça a dúvida, se eu devia ir ou não. Eu cheguei a comentar com ela que, se em alguns dias eu recebesse o diagnóstico de corona, iria omitir e em nenhum momento iria mencionar o nome dela dentre as pessoas com quem eu tinha tido contato prévio. Tudo para preservar a intimidade dela e a minha.


Depois do acontecido, eu não diria que cheguei ficar a paranóico. Mas, uma vezinha ou outra, quando eu sentia um certo cansaço, ficava me perguntando coisas como “será que a minha respiração está um pouco diferente?”, “eu tô mais ofegante que o normal?”, “e aí? será que eu tô? será que é um princípio?”. Cheguei a pensar nisso algumas vezes. Agora, pensando com calma, não diria que isso chegou a atrapalhar o meu sono ou que chegou a influenciar concretamente na minha rotina mas foram pensamentos que chegaram a surgir.


Eu cheguei a ter agendado com uma outra pessoa, um outro contatinho. Só que a menina deu pra trás. Ela trabalha no ramo da saúde. Até onde eu sei, ela não trabalha diretamente com pacientes de corona mas ela deu para trás na véspera. Achou melhor deixar quieto por precaução já que, por causa do trabalho, ela poderia ter o vírus sem saber.

Conversei também com David Schuchter, psicólogo especialista em relações de gênero e sexualidades, e ele dá algumas pistas para a gente entender o que está vivendo com relação à intimidade e ao sexo nesta pandemia. Confira!

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