• Mirela Mazzola

O Livro do Chá que pouco fala de chá

Lançada no início do século 20, a obra atravessa décadas como uma lente necessária ao olhar ocidental sobre o Japão



Um título tão objetivo dá a entender que O Livro do Chá é daqueles table books lindões, de capa dura e cheio de informações na linha “a enciclopédia do chá” ou “chá de A a Z”. Mas, na verdade, a obra do japonês Okakura Kakuzō (1862-1913), escrita em 1906, é uma reflexão sobre como a cerimônia do chá (ou chanoyu) atravessa várias aspectos da cultura japonesa. O apreço pelo ritual e pela hospitalidade, a filosofia marcada pelo taoísmo e pelo zen e uma estética minimalista, que traz incompletude, assimetria e imperfeição para o nível do sublime. Está tudo ali, no diminuto espaço do sukiya, como é chamado o aposento da cerimônia do chá.


Como a Tata Meraki explicou aqui, o chá chegou ao Japão no fim do século 12, quando o monge budista Eisai plantou sementes de Camellia sinensis trazidas da China. Essa origem espiritualizada, digamos, permeia a cerimônia do chá até hoje, contrapondo a loucura do mundo aos pequenos gestos orquestrados repetidamente e à perfeição. A disposição do espaço e os movimentos do mestre do chá colocam todos os participantes sob uma mesma atmosfera e um mesmo status (um autêntico sukiya tem portas baixas, para que todos agachem ao entrar), estabelecendo uma conexão profunda consigo, com os outros participantes e com o momento presente.


O lançamento do livro, no comecinho do século 20, coincide com uma crise de identidade cultural do Japão pós-era Meiji, conhecida por expor de fato o país à cultura ocidental. Consagrado um defensor da cultura japonesa perante ao prevalência ocidental, Kakuzō publicou o livro em inglês, ou seja, desde o início seu público estava para lá do Meridiano de Greenwich. E as comparações do autor se fazem presentes: “Em casas ocidentais, confrontamo-nos com frequência com algo que nos parece uma reiteração inútil. Com isso nos deparamos quando tentamos conversar com um homem enquanto, por trás dele, seu retrato de corpo inteiro nos contempla. Perguntamo-nos então qual é real, o homem do quadro ou o que fala, e sentimos a curiosa convicção de que um deles deve ser falso." No sukiya, conta, até a repetição de cores em uma flor e um objeto é redundante. Assim como o aposento do chá, Kakuzō discorre em capítulos concisos sobre as escolas de chá, taoísmo e zen, a apreciação artística, as flores e os mestres do chá. Os ótimos prefácio e posfácio são do mestre do chá Hounsai Genshitsu, membro da linhagem que descende de Sen Rikiu (1522-1591), mestre que estabeleceu os fundamentos da cerimônia como é praticada até hoje.


Outra reflexão pertinente que faz da obra uma bela introdução à cultura japonesa é a importância dos vazios e da incompletude. “A verdadeira beleza podia apenas ser descoberta por aquele que completasse mentalmente o incompleto. O vigor da vida e da arte repousa nas suas possibilidades de crescimento. No aposento do chá, fica a cargo de cada conviva completar o efeito total em relação a si mesmo através da imaginação.” Um raciocínio tão intangível quanto fértil de aprendizados à mente ocidental.



O Livro do Chá

Okakura Kakuzō (tradução: Leiko Gotoda) | 2008 | Ed. Estação Liberdade | 144 págs.


Mirela Mazzola (@mirelamazzola) é jornalista e atualmente mora em Kyoto. Passou por redações como Guia Quatro Rodas e Veja Comer & Beber, e tem matérias publicadas em revistas como Playboy e Época. Também atuou na área de comunicação institucional da Natura.

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