Lá e Cá #2 - Artes Marciais

Atualizado: Set 22



Artes marciais é um dos muitos temas que conseguem unir com facilidade o Japão e o Brasil. Judô, caratê e outras lutas japonesas chegaram às terras tupiniquins com imigrantes que atravessaram o mundo e levaram muito de sua cultura na bagagem. Essas artes se difundiram tanto no país que o Brasil é destaque esportivo nelas, ganhando medalhas e campeonatos mundo a fora.


Já faz algumas décadas que a capoeira vem ganhando espaço fora do Brasil. O número de praticantes nos Estados Unidos e na Europa parece que não para de crescer. Em muitos casos, são imigrantes brasileiros que levam consigo esse conhecimento. Em outros, o interesse pela capoeira leva gente do mundo inteiro para conhecer essa arte marcial afro-brasileira na fonte, em especial na Bahia e no Rio de Janeiro. No Japão, a capoeira vem aos poucos conquistando espaço e interesse entre japonesas e japoneses.


Para esta edição, convidei a japonesa residente no Brasil Kamekura Makiko e o brasileiro radicado no Japão Hendrik Lindelauf, ambos praticantes de artes marciais, para contar suas experiências.


Kamekura Makiko tem uma longa história com o Brasil e com a cultura afro-brasileira, conforme ela nos conta em seu depoimento. Ela pratica Capoeira Angola com o Mestre Ciro, de quem recebeu o título de Professora em 2019. Makiko faz parte de uma linhagem da Capoeira Angola que tem sua origem com um dos maiores nomes desta arte marcial no Brasil, o Mestre Pastinha (1889 - 1981). Além do Brasil, o trabalho do Mestre Ciro está em países como a Espanha, a Argentina, a Alemanha e, claro, o Japão, onde a Professora Makiko já ministrou treinos abertos.


Hendrik Lindelauf pratica o iaidô desde 2008 com o mestre Toyoshima Kazutora. Menos conhecido no Brasil que outras lutas japonesas, o iaidô é a arte de desembainhar a espada. Praticantes treinam com muita disciplina as diversas maneiras de usar a espada em diversas situações. A prática o levou a se iniciar também no ofício de togi [lê-se "to-gui"], que faz o restauro e o polimento de espadas, sob as orientações do mestre Youichirou Kawakami, que

discípulo da tradicional família Yoshikawa, cujo recentemente falecido patriarca era o polidor das espadas da Família Imperial Japonesa.


O Lá e Cá é um projeto que começou com um evento organizado na Embaixada do Brasil em Tóquio em 2018. A ideia central é colocar uma pessoa japonesa e uma brasileira para conversar sobre um assunto em comum que, nesta edição, é artes marciais. Vamos conhecer, então, um pouco da história de Makiko Kamekura e Hendrik Lindelauf.


Professora Makiko Kamekura (AECAJP CECA Pernambués Salvador Bahia Mestre Ciro)


Meu nome é Makiko Kamekura. Pratico a tradicional Capoeira Angola desde 2009. 

Comecei em Tóquio, Japão, com o hoje Mestre Mandela e, desde 2010, quando me mudei para Salvador, sou aluna do Mestre Ciro (AECAJP CECA Pernambués Salvador Bahia Mestre Ciro), discípulo formado pelo Mestre João Pequeno de Pastinha, o qual foi discípulo do Mestre Pastinha (Mestre Geral do CECA/ Centro Esportivo de Capoeira Angola).




De profissão sou tradutora (japonês - português) e também sou musicista. Já fiz dança afro e hoje, além da Capoeira Angola, faço cerâmica também.  Havia morado no Brasil, em Vitória (no estado do Espírito Santo), por 6 anos, na minha infância, devido ao trabalho do meu pai. Foi lá, nas minhas convivências e na escola de música onde eu estudava piano, que sofri influências da cultura afro-brasileira. Isso somado a uma viagem a Salvador, Bahia, com meus pais nos anos 1970, mais a novela A Escrava Isaura que eu vi na TV. 


Retornei ao Japão quando tinha 13 anos de idade porque a famila voltou mas a minha identidade cultural já estava meio que consolidada. Quando entrei na universidade, já em Tóquio, passei a fazer parte de um grupo que tocava músicas brasileiras e foi nessa fase que comecei a dançar o afro também.


Voltei para morar mais 1 ano no Brasil. Passei 6 meses em Belo Horizonte e mais 6 em Salvador. E foi em BH que pela primeira vez soube da existência da Capoeira Angola, no meio das minhas andanças pela cultura afro-brasileira. Naquele momento, percebi que a Capoeira Angola é composta de muitos movimentos baixos, diferente da noção que eu tinha da Capoeira anteriormente, com muitos saltos. Achei bonito mas, naquele momento, estava envolvida com a dança. Posteriormente fiquei um bom tempo afastada das práticas por muitos fatores mas na verdade com muita sede de dar continuidade à minha relação com a arte afro-brasileira. 


Em 2008, me deparei com uma turbulência familiar que me abalou e sabia que só a arte me tiraria do desânimo. Também comecei a enxergar uma certa deficiência nas leis que, dizem ser para nos amparar mas que, na prática, nem sempre são perfeitas. Estava em busca de algo que me desse preparo mental para imprevistos que sempre acontecem. Além disso, a minha mãe também me falava que talvez fosse bom eu ter conhecimento de alguma arte marcial para me defender. O destino da vida me fez deixar o Brasil e interromper a busca pelo afro-brasileiro repetidas vezes. Mas nada conseguiu tirar de mim a afinidade que eu sempre tive com essa cultura.


Os africanos foram tirados da sua terra natal mas, no Brasil, fizeram reviver a sua cultura, lutaram para a preservação dela mesmo sendo proibidos de praticá-la e perseguidos, ainda mais se tratando da Capoeira Angola. Eu vi nesse fato uma luz, pela história de resistência e preservação. Luta, porém com amor à cultura e pelo povo, que "se torna dança na hora da alegria", como dizia o Mestre Pastinha. E foi assim que, por fim, eu cheguei à Capoeira Angola do Mestre João Pequeno de Pastinha. 


No começo, tive dificuldades mas continuo no caminho, aprendendo. Mal comecei a engatinhar. Conhecedores mesmo, só os Mestres. Todos nascem com um certo dom. Ou sem dom, às vezes. Mas acredito muito no esforço e na dedicação. Acredito nos conhecimentos que Mestre Ciro têm e que nos passa e que o preparo pode chegar a mim também.


Em se tratrando de "acreditar", a Capoeira Angola, ainda mais num país como o Brasil onde a educação é precária, acredito que seja um grande meio de transformação de um indivíduo, da comunidade e da sociedade. O Mestre Ciro nos mostra isto, a sua preocupação e o lado educativo da Capoeira Angola. Ele está há décadas trabalhando com e em prol da comunidade e a sua trajetória é uma prova de superação de dificuldades. 


Quando se compara o Brasil e o Japão, tem muita diferença. Não é somente na Capoeira Angola mas na sociedade como um todo. Isso se manifesta no próprio fato de nós, japoneses, estarmos de certa forma acostumados com educação escolar de cunho militar, principalmente nas redes públicas e no meio esportivo, sob dura rigorosidade e muita exigência disciplinar e tal. Se quisermos aplicar 100% desse parâmetro para viver no Brasil, o relacionamento entre as pessoas se torna áspero demais. Não surte efeito e, às vezes, acaba criando atritos desnecessários pelo tipo de comportamento e formas de pensar diferentes que as pessoas têm, não desmerecendo nenhuma das partes. 


Ainda não susperei as dificuldades (rs). Estou aprendendo. Dia após dia. Conhecendo cada dia a mais o meio em que vivo e a mim mesma, tendo a ciência de que devo, em alguns momentos, ser mais paciente e medir os limites para minimizar os choques desnecessários. E quando o assunto é Capoeira Angola, antes de mais nada, seguir o Mestre.


Também produzo peças de cerâmica. Meu interesse pela cerâmica vem desde jovem pois a minha mãe fazia. Em casa, sempre tivemos muitas peças. Na casa dos meus avós, também, as minhas tias sendo artistas plásticas...


Se há algo em comum é que ambas tanto a Capoeira Angola quanto a cerâmica são artes. A cerâmica, que é mais chamada de olaria na Bahia, é tradição também da mesma forma que a Capoeira Angola. Sem deixar de mencionar que os Mestres da Capoeira Angola também são artesãos que fabricam os instrumentos utilizados nesta prática e que são detentores do conhecimento do ofício artesanal.


Agora, não sei se todos os praticantes de artes marciais gostam de trabalho manual. Acho que não é bem assim. Sei que cerâmica exige muito do físico também devido ao peso do barro e tal. Mas basicamente uma coisa não tem nada a ver com a outra. 


Para mim, uma coisa não influencia a outra mas, tanto a Capoeira quanto a cerâmica ou qualquer outra coisa em que você queira se aprimorar, é preciso se dedicar, ir em busca de uma pessoa experiente com quem se pode aprender, saber seguir as orientações e ensinamentos que estes mais experientes estão passando e, quanto às tradições, não querer deturpar. Preservar e seguir o orginal. Assim vejo os grandes Mestres fazendo a história. 


Tem uma frase do Mestre João Pequeno que diz assim: 


"Capoeirista tá batendo no seu adversário, ele não precisa encostar o pé. Ele deve ter o seu corpo freado, manejado pra levar o pé. Viu que o adversário não se defendeu, antes do pé encostar, ele freia o pé. Porque quem tá de parte vê. Ele não bateu porque não quis. Então não precisa dar pancada, não. Pra bater, não precisa dar pancada no adversário." 


Saber frear. Ele deixou esta grande mensagem para nós. 


Cabe aos mais velhos dizerem o que devemos aprender. Mas, quanto à sociedade japonesa, penso o seguinte: o mundo se acelerou demais e a sociedade japonesa não é exceção. Foi se automatizando, se robotizando, trens-bala e o povo correndo a mil. Com isso tudo, vem a prática da violência da pessoa contra a sua própria integridade. Isso está deixando a sociedade doente. Perdeu o "freio"! 


E outra: tem uma frase do Mestre Pastinha diz assim:


"Capoeira é para homem, menino e mulher, só não aprende quem não quer". 


Isso é sobre ser inclusivo e não ser exclusivo. O Japão é uma sociedade que preza, na maioria dos setores, uma alta escolaridade, obtida de uma forma muito cruel. Aqueles que não tiveram oportunidade acabam à margem da sociedade, sem grandes chances, meio que para a vida toda. Para grande supresa de muitos, uma em cada 6 crianças vive abaixo da linha da pobreza e um dos fatores é a baixa escolaridade dos pais. Isso no Japão! 


A Capoeira Angola abraça a todos que queiram aprender. Sobre isso venho refletindo muito através dos ensinamentos do Mestre Ciro. Mas continuo dizendo, cabe aos mais velhos fazerem esse tipo de avaliação quando o assunto é relacionado à Capoeira Angola. Ela é tradição, ela é Mestria. 


Sou grata em poder "beber a água da fonte", poder vivenciar a história viva desta cultura de origem africana. Sou grata a esta Bahia, especialmente ao Mundo de Angoleiros e aos Mestres, em especial ao Mestre Ciro, que nos ensina, e ao Mestre João Pequeno que deixou uma grandiosa obra para o acesso de todos aqueles que buscam a verdade da e na Capoeira Angola.


Hendrik Lindelauf


Meu nome é Hendrik Lindelauf. Pratico Iaidô desde 2008, em Koshigaya [província de Saitama], com o mestre Kazutora Toyoshima. Ultimamente, tenho me dedicado mais aos treinos de MMA e ao trabalho com espadas. Então tenho treinado apenas nos encontros mensais e participado dos torneios anuais. Além disso, trabalho em uma loja de espadas antigas em Ikebukuro. Estou aprendendo muito. Deve ser o trabalho mais massa do mundo, pelo menos para mim (hahaha). O Iaidô tem raizes muito antigas e tanto os treinos como o interesse por espadas me ajudaram muito com o meu estudo de história japonesa, quando eu ainda estava na universidade.




Um amigo que trabalhava com espadas me apresentou ao sensei [mestre] Toyoshima. Eu achei incrivel pois o nosso dojô [academia] é um dos poucos em que os alunos são obrigados a utilizarem espadas verdadeiras desde o inicio dos treinos. Esse é um dos motivos de não termos muitos membros no grupo, em comparacao com outras escolas.

Decidi praticar o Iaidô de forma mais séria quando percebi, primeiramente, a necessidade de praticar uma arte marcial que fosse bem enraizada na cultura e nas tradições do Japão. Segundo por causa da prática com espadas reais, o que pode ser um pouco perigoso para uma pessoa que esta sempre no mundo da lua como eu!


No início, tive algumas dificuldades mais relacionadas à minha personalidade do que relacionado ao lado cultural. Eu sou muito enérgico e agitado e, durante os treinos, precisamos de bastante concentração para saber conciliar movimentos rápidos e bruscos com movimentos mais calmos e mais harmônicos. Eu ainda nao superei as dificuldades. Sou o tipo doido que já quer sair arrebentando tudo. Hahaha.


Eu trabalho como togishi [lê-se to-gui-shi], polidor e restaurador de espadas japonesas. Nesta área, sou discipulo do mestre Youichirou Kawakami, da linhagem de polidores da família Yoshikawa. Nesse trabalho, nós devemos realçar o lado artístico que está nas espadas, os detalhes que mostram as caracteristicas do forjador e a época em que ela foi forjada. Eu trabalho tanto com peças atuais como com algumas que têm mais de 500 anos de idade. Uma espada feita de maneira tradicional, nunca terá outra idêntica. O togi [lê-se "to-gui"] é um trabalho mais artístico enquanto no Iai lidamos com a espada como uma arma. Os praticantes de Iai que pedem o trabalho de polimento preferem mais uma espada bem afiada para os treinos de tameshigiri [cortes em alvos feitos de bambu verde ou palha de arroz] do que com ênfase nos detalhes artísticos. Já os colecionadores preferem espadas com suas características artísticas bem realçadas.

O que te traz mais me traz satisfação na prática do Iaidô é fazer parte de uma família. Começando com Toyoshima-sensei, todos os membros do dojô [academia] são muito unidos e se preocupam uns com os outros. A preocupação é tanta que o sensei tem sempre ligado para saber como está a minha família no Brasil, devido essa crise da covid-19. Se esse dojô vier a acabar, acho que não entrarei em outro. Provavelmente eu treinarei por conta própria.

Com o Iaidô, aprendi a ouvir na hora certa e falar na hora certa. O sensei é bem brincalhão mas tambem sabe dar uma bronca quando é preciso e eu ja levei várias. Hahahah. Mesmo já sabendo o que vai ser ensinado por ele, todos ouvimos atentamente como se fosse algo novo. Também aprendi a cumprimentar a todos no inicio e no fim dos treinos e a importância de participar da limpeza do espaço que usamos para os treinos, o dojô.

Para o brasileiro, acho que o Iaidô ensina disciplina e respeito. Tanto no dojô de MMA como no de Iaidô, do mais graduado ao iniciante, todos fazemos a limpeza nos fins dos treinos. Além disso, ao entrar no dojô e ao sair devemos cumprimentar a todos em alto e bom som. Nos dojôs, o cumprimento a todos no início e nos fins dos treinos e a participação limpeza é regra geral.


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