Kamikochi: a terra de descenso dos deuses



Alimentado pelas águas da chuva e pelo derretimento de neve dos picos de montanhas que chegam a atingir mais de 3000 metros de altitude, o Rio Azusa forma um vale magnífico. Aqui fica um dos lugares mais mágicos do Japão: Kamikochi. O local é parte do Parque Nacional Chubu Sangaku, uma reserva que engloba toda a parte norte dos Alpes Japoneses, uma cadeia de montanhas vulcânicas que perpassa as províncias de Toyama, Nagano e Gifu.


Estando a cerca de 1500 metros acima do nível do mar, é possível imaginar que Kamikochi tem um inverno rigoroso. Por isso, a localidade só fica aberta aos turistas do meado do mês de abril até a metade de novembro. Veículos privados não podem circular na região. Quem vem motorizado precisa deixar o possante num estacionamento próximo à entrada do vale e seguir de ônibus o restante da viagem. Assim, quase que livre de veículos, Kamikochi é um paraíso para quem gosta de caminhadas na natureza e é um espetáculo que se transforma com o tempo, ao sabor das estações


Entre abril e maio, restos de neve ainda podem ser vistos pelas trilhas. A paisagem se completa com as folhas jovens das árvores. Do início de junho ao meado de julho, as chuvas tomam conta na época conhecida como tsuyu. No verão, as agradáveis temperaturas que contrastam com o calor de boa parte do arquipélago tornam o local ainda mais atrativo. Por fim, em meados de setembro, o outono chega fazendo as folhas ficarem vermelhas e amarelas, encerrando a temporada de visitação.


Heranças da atividade vulcânica

Quem entra no parque já pode ver pela janela do ônibus e por entre as folhagens o Lago Taisho. Formado em 1915, após uma erupção que interrompeu o fluxo do rio, o lago tem uma paisagem bucólica que ganha contornos dramáticos com os caules das poucas árvores que jazem no meio do espelho d’água, testemunhas mortas da explosão [foto de abertura]. Uma das formas mais bacanas de apreciar a beleza do lago é um passeio numa canoa com capacidade para três pessoas.


Do Lago Taisho em diante, é possível tomar novamente o ônibus até o centro do vale, onde fica o terminal rodoviário e uma série de lojinhas, hotéis e outros estabelecimentos. No entanto, o encanto do lugar está justamente em fazer a pé a rota pela floresta. A trilha que liga o Lago Taisho até a Ponte Kappa tem 4,2 km de extensão e é muito confortável de caminhar. Na rota, além da beleza das árvores, é possível apreciar o canto dos pássaros. Cerca de 100 espécies diferentes são encontradas na região, a maioria de pequeno porte como o sabiá-de-cabeça-marrom.


Algumas das mais belas paisagens de Kamikochi podem ser vistas nesta rota que, na maior parte do tempo, beira a corredeira de águas cor de esmeralda do Rio Azusa. O Lago Tashiro é uma delas. Formado pelas águas que descem do Monte Kasumizawa, o lago mais parece um rio. Raso por conta dos sedimentos e cheio de fontes de água que brotam do solo encharcado, o Tashiro reflete a vegetação e as montanhas como um espelho. No verão, flores como a azaléia e o sagisuge trazem colorido para o lago que, em muitos momentos, lembra uma pintura de Monet.



Mais ou menos na metade deste primeiro trajeto, na parte onde as pontes Tashiro e Hotaka cruzam o rio que se divide temporariamente em dois braços, fica uma área de descanso, com alguns hotéis e um imenso espaço aberto nas margens do rio. Aqui, muita gente aproveita para almoçar e ficar mais próximo das águas. O Kamikochi Onsen Hotel, por exemplo, oferece na sua entrada um ashiyu, um banho de águas termais para os pés, excelente para quem quer relaxar da caminhada, antes de seguir para a parte central da área mais visitada do parque.


Macacos rio acima

A poucos minutos de caminhada a partir do Terminal Rodoviário fica a Kappabashi, uma ponte suspensa de madeira que se tornou um símbolo de Kamikochi. Kappa é uma criatura do folclore japonês que vive em rios, lagos e lagoas. Também é o nome de um romance escrito em 1927 por Akutagawa Ryunosuke , que usou a ponte como inspiração para fazer uma sátira à corrupção na sociedade japonesa. A Kappabashi é o lugar para fazer aquela foto especial do vale, com os montes Hotaka e Myojin ao fundo.



Seguindo a trilha rio acima, pode-se chegar às localidades conhecidas como Myojin, Tokusawa e Yokoo. Cada margem do rio tem uma trilha com diferentes paisagens. Após cerca de dez minutos de caminhada pela rota da margem esquerda fica o Pântano de Dakesawa, um alagado com água corrente e cheio de caules de árvores. Sem dúvida, um dos locais mais belos de Kamikochi.


Longe das áreas de aguaçal, mas ainda na beira dos rios, começam a aparecer bandos de macacos que caminham entre os humanos sem sobressaltos. São animais da espécie Macaca fuscata, muito comuns nos Alpes Japoneses. É o mesmo tipo de macaco que habita outro ponto turístico conhecido da província de Nagano, o Jigokudani, onde os bichinhos se tornaram mundialmente famosos por tomar banhos em piscinas de águas termais. Dezenas de macacos, a maioria fêmeas com os seus filhotes, circulam pela área, tornando o passeio ainda mais interessante. A dica é não interagir diretamente com os animais, em especial não tentar tocá-los. Também não olhe os macacos nos olhos, gesto que eles interpretam como ameaça.


Cerca de uma hora de caminhada a partir da Ponte Kappa, ou 3,5 quilômetros, chega-se finalmente ao okumiya, uma espécie de filial, do importante Santuário Hotaka que fica em Azumino, já fora do vale, a jusante do rio. Dedicado à Hotaka-no-mikoto, guardião dos Alpes Japoneses e divindade responsável pela segurança no trânsito, o local também é a porta de entrada para o belíssimo e misterioso Lago Myojin. Suas águas vêm do descongelamento dos picos do Monte Hotaka e abastecem o Rio Azusa que desce o vale e irriga os campos de arroz que fica nas áreas mais baixas, justamente na área onde se localiza o santuário matriz. Por essa relação, o Myojin é considerado sagrado para o xintoísmo, uma religião em que o sagrado se manifesta através da natureza.



Qualquer observador consegue entender facilmente como o movimento das águas morro abaixo molda a paisagem e faz conexão entre as montanhas e o mar. A água que vem dos Alpes e escorre pelo vale formando Asuza também nutre o povo que vive nos planaltos, irrigando o arroz e as demais culturas, trazendo abundância e riqueza.


Nesse sentido, é fácil entender a água como uma bênção, uma dádiva, e fica clara a razão pela qual os antigos são devotos das montanhas. Kamikochi, com toda a sua riqueza natural, é um santuário. Antigamente o nome da localidade era escrito com os caracteres「神降地」 que, literalmente, podem ser entendidos como “o local onde os deuses desceram”. Por isso, é impossível sair deste vale sem ser tocado por algo que, independente da crença de cada um, tem um quê de divino.


ACESSO

De Tóquio, Saitama, Osaka, Takayama e Nagoya partem ônibus direto para Kamikochi. De trem é possível chegar até Matsumoto e embarcar na linha Kamikochi da companhia Alpico. A viagem ferroviária é até a estação de Shin-shimashima, onde se deve embarcar no ônibus que leva até o destino final, Kamikochi. Apesar da baldeação, é possível comprar um tíquete único para toda a viagem na estação de Matsumoto.


Este texto foi publicado originalmente na revista Guia JP.

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