Irregular, nova releitura de Ju-on mostra que o aterrorizante é a vida

Atualizado: Jul 21




Para uma boa parte dos brasileiros, o Japão é o ideal (inalcançável) de nação. Nas reportagens de TV, o país é perfeito, com sua gente trabalhadora e resiliente e suas megalópoles que funcionam no tique-taque do relógio. Óbvio que a realidade não é essa, nem aqui nem em lugar nenhum. Claro que, se olharmos para as mazelas do mundo que nos cerca, a vida no Japão é um privilégio. Mesmo assim, a sociedade japonesa está longe de ser perfeita e essa poderia ser a premissa da franquia Ju-on que acaba de ganhar uma nova releitura, desta vez em formato seriado, exibida pela Netflix com o título de Ju-on: Origins.


A história gira em torno da aspirante a atriz Honjo Haruka (Kuroshima Yuina) que participa de um programa de TV relatando uma experiência sobrenatural. Ela divide a bancada de convidados com Odajima Yasuo (Arakawa Yoshiyoshi), um pesquisador da paranormalidade que fica particularmente interessado no caso de Haruka. Ela tem uma fita cassete com sons que se parecem com passos, gravadas durante uma noite. Estamos em 1988 e Haruka tem um namorado sensitivo, Tetsuya (Inowaki Kai), o qual vive uma experiência extrassensorial ao visitar um imóvel e passa a ter visões de uma mulher toda de branco carregando um bebê de colo.


Paralelamente a isso, corre a história de Kawai Kiyomi (Ririka) que é transferida de escola no meio do ano letivo e vive um relacionamento desagradável com a mãe Mina (Matsuoka Izumi). Kiyomi é convidada por duas colegas do colégio para uma saída após a aula e é assim que ela também passa a ter relação com a mesma casa visitada por Tetsuya. Tudo o que ocorre se relaciona com os dois caracteres representados na palavra em japonês (呪怨 ju-on) que dá título à série e significam, na ordem em que aparecem, “maldição” e “ódio”. Em outras palavras, a maldição surge depois de um crime violento e contamina (quase) todos que se relacionam com a casa.



Quem conhece a série já sabe que o mistério da casa envolve um caso extremo de violência familiar e tudo o mais que ocorre depois com cada personagem ter a ver com isso. Tragédias familiares são uma constante no Japão. A mais recente delas envolveu uma jovem mãe solteira que deixou a filha de 3 anos sozinha em casa, em Tóquio, para encontrar-se com o namorado que vive a mais de 1300 quilômetros de distância. A criança morreu de inanição. Num país onde segurança pública não é um problema, notícias como esta ganham destaque e horrorizam a população.

Dirigido desta vez pelo japonês Miyake Sho (Playback, Wild Tour), o remake não deixa de trazer algumas marcas e ideias do original de Shimizu Takashi como o pouco apelo ao recurso batido do susto e do mistério em torno da imagem das criaturas sobrenaturais. A Mulher de Branco, personagem central na história da maldição retratada no título, aparece logo de cara, sem ser usada como recurso imaginativo para criar terror. Essas escolhas, para quem está acostumado com filmes de terror hollywoodianos, podem parecer equivocadas. Ainda mais porque boa parte da plateia internacional não reconhece os símbolos e referências culturais e pode, simplesmente, achar as obras ruins.


Ju-on: Origins assim como toda a franquia e outras obras como Ringu (Nakata Hideo, 1998) bebe na fonte dos kaidan, histórias de terror populares no Período Edo (1603-1868) que giram em torno de um onryō, um fantasma vingativo, em geral de uma pessoa que foi vítima de injustiça durante a vida. Dentre esses personagens, mulheres que sofreram abuso e acabaram mortas por isso são um tipo comum. Na série, um feminicídio é o motivo inicial da maldição e de várias outras mortes posteriores. Então, as personagens femininas tem papel importante na história, sobretudo Haruka e Kiyomi.


Mesmo que seja involuntário, e provavelmente é, fica impossível desassociar Ju-on: Origins de toda a discussão de violência de gênero que o mundo de hoje vivencia. A “maldição” da obra tem paralelos muito fortes na vida real e qualquer pessoa com sensibilidade não necessita de truques cinematográficos para se apavorar com o que se vê na série. Nesse sentido, pode-se dizer sem medo que em Ju-on: Origins o aterrorizante é a vida. Assustar-se ou não com o que se vê vai depender da sensibilidade de quem assiste.

Ju-on: Origins

série em 6 episódios

(Japão, 2020, Netflix)

direção: Miyake Sho

roteiro: Takahashi Hiroshi, Ichise Takashige

★ ★

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