• Roberto Maxwell

Hitotachi - Shinji Shiozaki, Imaterial

Atualizado: Mai 23

[17 maio 2020 - Este texto foi editado. Em versão anterior, o título do filme "Os oito odiados" foi citado incorretamente. O texto já foi corrigido.]


Não me lembro muito bem quando conheci o Shinji. Até aí, normal. Eu nunca me lembro direito do dia em que conheço as pessoas. O que eu me lembro é que o cinema foi a coisa que nos conectou. Provavelmente, eu ainda era um wannabe cineasta e tinha feito algum dos meus últimos curtas.


Uma das coisas que eu me lembro era que o Shinji tinha um certo ranço do Japão. Pelo nome, já deu para sacar que ele é descendente de japoneses e, como muitos dos que vem para cá jovens, na onda do tal do movimento dekassegui, o Shinji se viu dentro de uma fábrica, vivendo uma vida de trabalho em excesso e quase sempre sem sonhos. Para uma cabeça cinematográfica como a dele, aquela experiência foi excruciante.



Fazia tempo que eu não falava com o Shinji até que eu vi no Facebook que ele estava estreando um longa metragem, o Imaterial. Tão significativos para tudo o que eu conheci do Shinji são o nome e a pauta da película. Paraense vivendo em São Paulo, ele faz da cidade que o acolheu o cenário e joga suas lentes, juntamente com o co-diretor Felipe Santiago, para os artistas que encorpam a cena do skate na maior metrópole do Brasil.


Sim, é metalinguagem, aquele negócio que existe quando a arte (e o artista) é a obra. Apaixonado por skate, Shinji poderia muito bem ser um dos entrevistados do próprio filme. Já que ele não está lá dessa forma, eu decidi chamá-lo para contar um pouco mais de si neste momento tão cheio de dúvidas e incertezas que a gente está vivendo. Fala, Shinji!


Quem é você na fila do lámen?

Sou Shinji Shiozaki, trabalho como videografista no Sesc/SP e faço uns documentários independentes. Eu sou uma espécie de Gollum, que revela o mau humor pela fome e, também, um Sméagol, pela euforia de estar perto de comer. "My precious!"

Onde você está se escondendo?

Nasci e cresci em Belém/PA, morei um período no Japão e aqui em São Paulo é o lugar que mais me sinto em casa. Já moro aqui há 13 anos.

Qual a onda que você está criando no momento?

Acabei de lançar o Imaterial, um documentário sobre arte, observação abstrata, ocupação urbana, skate. Já tô produzindo um segundo longa-metragem também sobre artes plásticas e processo de criação. Os dois filmes têm o lance de serem sobre a paixão de fazer alguma coisa, de se encontrar no mundo. A produção desses documentários acaba sendo inerente ao seu tema, me encontro nisso também. Acho que essas produções independentes são as ondas que gosto de espalhar por ai.

Que tipo de coisa é capaz de te tirar da tua concha?

Interpretando aqui a "concha" como segurança, existem duas coisas que me fazem sair e me animam muito de ficar vagabundando por ai, olhando as coisas, observando a rua: skate e fotografia. As duas ferramentas têm uma possibilidade imensa de experimentalismo, pra vida toda. É o que me faz ir ver as novidades.

O que te faz chorar um litro de lágrimas?

Não sei muito bem... As vezes que lembro de ter chorado foi pela morte, talvez nem tenham sido litros. Meio triste isso, né? Não lembrar de ter chorado por algo bonito. Acho que é isso, eu também não sei.

Qual foi o último sonho de que você se recorda?

Não lembro muito dos sonhos que ando tendo. Até pensei em ler o livro do Sidarta Ribeiro "O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho", na verdade está na minha lista. As pessoas têm aquela ideia romântica do sonho, como se fosse uma viagem de ácido com absinto. Geralmente os que eu lembro são mais ou menos assim: "...sonhei que te via... mas não era tu, estávamos no Uruguai... mas a tua cabeça caiu... aí percebi que era Guarulhos na verdade..." É um caos.

O que você levaria para uma estadia na Terrace House?

Não sei o que é a Terrace House. Provavelmente levaria a Maria Fernanda, minha companheira. Se fosse uma roubada, tiraríamos isso de letra juntos.

O que te tira do zen?

O fascismo brasileiro, com essa pompa classe-média, esses arrotos escravagistas, falso moralismo e toda a lógica dissimulada. Não dá pra ficar em paz com isso.

Qual é a coisa mais Japão que você possui?

Acho que qualquer resposta aqui seria ou piegas ou caricata. Morei no Japão por um tempo e fui completamente infeliz. Tinha crises de ansiedade, enfim... Depois de morar, trabalhar nas fábricas, me alimentar e dormir de forma precária, voltei pro Japão como turista e agora não penso em outro lugar pra ir. Gosto muito de ficar por ai vagabundeado de um lado pro outro. 

Não respondi diretamente, a resposta tá "entre-as-linhas".

Me diz uma coisa que ninguém pode saber.

Existem uns protocolos sociais que ainda são um tabu, principalmente na sociedade brasileira. Exemplo: assumi que acho futebol um saco. Acho mesmo. Aqueles noticiários na hora do almoço falando sobre o atacante, o técnico, a regra... Chato demais! Agora, respondendo tua pergunta: Tarantino é superestimado. Acho Kill Bill chatíssimo. Existe uma solução de roteiro, uma ação/personagem coringa, que eu penso "aaafeee...!!!". Exemplo de um filme que eu realmente acho muito bom: Os oito odiados. A construção de personagens é incrível. Aí, o cara me saí com um maluco esquecido no andar de baixo que não se manifesta por duas horas, sem contar o final. Sempre penso: "puta merda, tinha que Tarantinar".


01:45 | Trailer do filme "Imaterial"

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