Hitotachi - Renato Alves, um olhar necessário sobre o Japão

Atualizado: Set 22



Faz um tempo que uma reportagem em português sobre a vivência de pessoas negras no Japão viralizou nas redes sociais mostrando uma realidade que, até então, era desconhecida de muita gente. Não demorou muito para que outra história seguisse o mesmo caminho, desta vez centrada na história de um brasileiro preto e sua dificuldade de conseguir empregos à altura de sua formação acadêmica.


Compartilhadas na medida da importância que o tema que abordam tem, as matérias, no entanto, foram escritas por repórteres brancos. Não há demérito nenhum nisso, claro. Mostra, aliás, que pessoas brancas estão usando o privilégio de suas posições na mídia para dar vozes a histórias que nem sempre encontram espaço para serem contadas. Acontece que tudo ganha uma dimensão mais profunda quando a pessoa preta usa a própria voz para contar suas vivências. São camadas e precepções que brancos como eu não conhecem.


É assim que enxergo a importância do trabalho que o carioca Renato Alves está fazendo em seu canal do YouTube. Esse olhar super particular, mesclado com paixão pela cultura pop japonesa e alto conhecimento da língua e da cultura do país, faz do Mundo Tokiano um canal que oferece uma janela especial e única sobre o Japão.


Por esse motivo, quis conhecer melhor o Renato e não vi melhor meio do que convidá-lo para responder às loucas perguntas do Hitotachi. Não me arrependi. Confira!


Quem é você na fila do lámen?

Ainda estou tentando achar meu lugar nessa tal fila, mesmo não sendo muito fã de lámen. Sempre que vou a algum restaurante de lámen, eu sou a pessoa que só come os gyoza haha. Bem, deixando esse papo de lado, meu nome é Renato Alves, sou brasileiro nascido no Brasil mesmo (por aqui, essa menção é necessária haha). Aos meus 9 anos de idade, quando via as "letrinhas" japonesas estampadas no oratório religioso de minha mãe, fui atraído de alguma forma por aqueles desenhos. Desde então, simplesmente dizia que iria aprender aquele idioma e que moraria naquele país quando fosse adulto. Esse desejo se estendeu para o interesse em mangás, animês, estudo e ensino da língua japonesa. Ou seja, minha relação com o Japão sempre foi religiosa, cultural, educacional e emocional.

Onde você está se escondendo?

Sou um carioca da gema que atualmente está se escondendo em Tóquio desde 2014.


Qual a onda que você está criando no momento?

Apesar de atualmente ser trabalhador de período integral, ou seja ir à empresa e ficar na frente do computador regradamente, comecei um projeto no youtube que se chama Mundo Tokiano (tokiano = de Tóquio), em que tento mostrar o Japão através de uma pessoa como eu: um estrangeiro sem ascendência japonesa, gay e preto. Falo sobre minhas experiências, curiosidades sobre o Japão, dicas, coisas pelas quais me interesso e, lógico, faço vídeos com muito humor. Estou tão apaixonado em gravar vídeos que até já pensei em começar a estudar cinema ou algo assim.


Que tipo de coisa é capaz de te tirar da tua concha?

O que me tira da minha concha é quando me subestimam. Não é de costume ver pessoas como eu em certos lugares e isso parece que incomoda algumas pessoas.  E o que mais me tira da concha são as perguntas estúpidas que essas pessoas fazem para mim por me subestimarem de alguma forma. Apesar de fazerem essas coisas sem a intenção, eu percebo muito rápido.


O que te faz chorar um litro de lágrimas?

Na verdade, qualquer coisa relacionada às artes: livros, pintura, teatro, filmes, anime, novelas etc. Depois que vim morar no Japão e, especialmente depois que comecei a viver sozinho, sinto que me tornei uma pessoa mais sensível. Quando vejo algum filme/série bem emocionante, eu choro feito bezerra desmamada.

Qual foi o último sonho de que você se recorda?

Quando tenho pesadelo, parece que acordo com ressaca. Por isso costumo me recordar mais dos pesadelos do que dos sonhos. Mas creio que meu último foi o clássico caindo de prédio bem alto. Odeio sentir aquele frio na barriga de quando está caindo.


O que você levaria para uma estadia na Terrace House?

Pergunta difícil! Não sei...Talvez levaria snacks brasileiros tipo paçoca, para me aliviar comendo depois de possíveis estresses.   


O que te tira do zen?

O que me tira do zen é eu não estar confortável. Ou quando alguém tenta me inibir de alguma forma simplesmente por eu ser quem sou.


Qual é a coisa mais Japão que você possui?

Acho que são os meus livros de japonês e de kanji [caracteres usados na escrita japonesa] de nível básico ao avançado. Acho que guardo para quando eu decidir a voltar a dar aulas de japonês. Ou, então, os meus livros de romance em japonês. (Muitos eu só li até a metade haha).

Me diz uma coisa que ninguém pode saber.

Minha vida é um livro aberto mesmo. Porém, quando era adolescente, sempre sonhava em viver uma história de amor igual às histórias românticas de colegial dos doramas [ficção seriada de TV] japoneses. Acho isso bem pessoal, logo, ninguém poderia saber até essa entrevista haha.

Encontre o Renato Alves no YouTube e no Instagram.

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