Hitotachi - Na cozinha de Flavia Nishimura



Não é difícil encontrar pães belíssimos no Japão. Na gastronomia, parece que japonesas e japoneses fazem as coisas com um nível de excelência sempre acima. Mas existe uma coisa que não me convence na maior parte dos pães que eu como por aqui: o sabor. Sempre parece que está faltando alguma coisa. Por isso, estou sempre de olho nos pães, onde quer que eu vá, mesmo que no mundo digital.


Foi numa andança em uma comunidade para expatriados em Tóquio que eu descobri o trabalho da Flavia Nishimura e, atirado como sou, mandei mensagem para ela imediatamente. Queria saber tudo, sobre os pães, sobre o trabalho e sobre ela. Não demorou muito para eu ver que temos um monte de amigos em comum. Quando isso ocorre, fico pensando que o mundo pode até ser pequeno mas é, também, um labirinto onde você acaba se "escondendo" de outras pessoas. Fico feliz porque descobri, finalmente, a Flavia e o universo particular dela, em que cozinha, flores e vinhos se encontram. Confira!


Quem é você na fila do lámen?

Certamente eu sou aquela que está pensando desde o processo de criação e de produção até o porquê dos clientes preferirem esse lámen e não o do lado. Sou extremamente observadora e gosto de saber o porquê de tudo, sempre tentando descobrir o que tem por detrás da cortina. Seja quando assisto um filme ou um show ou até quando estou apreciando um prato, sempre me interesso em saber como aquilo foi feito, de onde a ideia surgiu.


Por esse motivo acabo me envolvendo com muitos projetos diferentes que têm processos criativos e de produção totalmente distintos. Um exemplo bem fácil de entender para a maioria das pessoas é a arte do Ikebana [os arranjos florais tradicionais japoneses], à qual me dedico há 6 anos e [sobre a qual] dou aulas em Tóquio. Todas as pessoas que não praticam Ikebana não entendem o porquê, o sentido, e nem para quê serve. É uma ideia extremamente etérea que você só consegue entender com a prática.


Isso serve também para explicar a minha paixão por vinhos, área em que atuo como instrutora realizando workshops. O fato de abrir uma garrafa de vinho e sentir todos os mais diferenciados aromas e de saber que aquele líquido foi feito a partir das uvas, que ali não tem, de fato, nada mais do que uva e técnica... Os aromas de morango, chocolate, baunilha e tantos outros nunca estiveram nessa garrafa, senão no sentido poético. Mas como eles chegaram até ali se nunca estiveram ali? Então, novamente se estuda a geografia, a ideia de criação de quem visualizou esse vinho antes dele existir, o método de produção até se responder todos os porquês. O mesmo acontece na gastronomia na qual, antes do prato ser feito, ele é idealizado.

Onde você está se escondendo?

Em uma casinha com um jardim encantado cheio de aromas em Shimokitazawa, bairro boêmio de Tóquio.

Qual a onda que você está criando no momento?

Trabalhei em cozinhas de restaurantes por alguns anos e há 3 anos atrás comecei a falar sobre a cultura alimentar brasileira para os japoneses, através de aulas de culinária com foco no lado cultural dos ingredientes e pratos. Além disso, sou apaixonada por fermentação natural de pães e dou aulas sobre o tema. Desde abril deste ano, é possível adquirir online meus pães artesanais, feitos sem aditivos químicos. Eles são entregues em todo o Japão.  

Que tipo de coisa é capaz de te tirar da tua concha?

Uma exposição de arte, um restaurante bacana, um passeio agradável com pessoas especiais.


O que te faz chorar um litro de lágrimas?

Sou daquelas que chora até em comercial de papel higiênico. Porém, os fatos tristes que possam vir a acontecer na minha vida dificilmente me fazem chorar pois sou mais da atitude, de descobrir o porquê aquilo aconteceu e fazer o meu melhor para que não aconteça novamente. 

Qual foi o último sonho de que você se recorda?

Tenho muitos sonhos recorrentes, passo anos tendo o mesmo sonho. Nos últimos meses, sempre entro em uma casa da qual não consigo sair. Acredito que isso tenha haver com o fato de eu ser muito na minha e estar sempre vivendo no meu mundo.

O que você levaria para uma estadia na Terrace House?

Minhas facas e meu fermento natural. Ia passar os dias cozinhando. 

O que te tira do zen?

Intolerância de qualquer forma.

Qual é a coisa mais Japão que você possui?

Tavez seja ser uma pessoa reservada quanto à vida particular.

Me diz uma coisa que ninguém pode saber.

Se quiser que eu vá para a direita, basta mandar que eu vá para a esquerda.


Conheça o trabalho da Flavia Nishimura através do Facebook e do Instagram.

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