Hitotachi - Inês Carvalho Matos, uma ponte entre Portugal e o Japão



As relações entre Portugal e o Japão sempre me interessaram. No Brasil, a gente não estuda o assunto com profundidade mas os portugueses chegaram até o Extremo Oriente, onde estabeleceram colônias e feitorias. No Japão, a história é bem controversa, ao ponto que os senhores feudais decidiram que os portugueses — e, depois, praticamente todos os estrangeiros — deveriam ser expulsos do país. Com isso, iniciou-se um período de mais dois séculos de isolamento, com repercussão fortíssima na formação da identidade do povo japonês.

Foi esse interesse que me conduziu ao trabalho da Inês Carvalho Matos. Com pesquisa aprofundada sobre a história do cristianismo no Japão, a Inês resolveu usar seus conhecimentos não somente no ambiente acadêmico mas, também, para auxiliar turistas a vivenciar o Japão de forma mais intensa. Esse olhar para a troca cultural e para a experiência, que entra em choque com turismo de massas, foi outro ponto em comum que encontrei com ela. Desde então, sigo com afinco suas publicações no Projecto Cultural e Pedagógico Japão & Portugal, uma página no Facebook com conteúdo e discussões de qualidade.


Deixo vocês com a Inês, nesta nova edição do nosso sempre surpreendente Hitotachi. Aproveitem!


Quem é você na fila do lámen?

Eu converso com todo o mundo, o que mais me interessa é "descobrir" esse universo que cada um tem dentro de si: o que pensa, como sente, que escolhas fez na sua vida. Para mim ninguém é "chato", não tem isso de "pessoa desinteressante". Então nessa fila eu falaria com quem está à frente e atrás, provavelmente até colocaria em contacto um parzinho ou, então, a gente iria descobrir que alguém daquela fila é primo! Mas eu não fui sempre assim, na escola eu era bem comportada e estudava muito, e um pouco tímida também. É que eu adorava aprender, adorava estar ali, mesmo. Sempre fui daquele tipo de julga fascinante saber mais sobre como o mundo funciona. Então, na escola, eu estava centrada nisso. Foi só depois, na vida, no trabalho, que a "borboleta social" se desenvolveu. 


Quando eu comecei a ter de viajar para trabalho, indo a conferências e fazendo trabalho de campo para a tese, eu descobri esse lado de mim que tem a vontade em comunicar. Depois, com o trabalho da consultoria para viajantes, eu vi que conseguia fazer as outras pessoas felizes com o meu trabalho, porque ajudava a realizar a viagem de sonho da vida delas. Isso deu uma grande sensação de recompensa, muito mais do que o rendimento que vem daí. Pode ser num pequeno workshop sobre o que é a cerimónia do chá, ou num cursinho de história da arte japonesa, ou no atendimento a alguém que está a planear a sua viagem ao Japão, não interessa se é uma coisa grande ou pequena, penso que o mais importante é mesmo que quando as vidas de duas pessoas se tocam, a gente pode sempre escolher enriquecer mais o coração da outra pessoa, fazer daquela ocasião uma coisa preciosa e com um impacto positivo. Eu vejo sempre toda a gente como uma oportunidade de multiplicar a energia positiva e, também, de aprender algo mais sobre a natureza humana. 

Onde você está se escondendo?

A minha "toca" é em Coimbra, uma cidadezinha que é uma coisa fofa no centro de Portugal. Tem uma universidade cheia de história e eu me mudei de Lisboa para aqui precisamente para fazer doutoramento. Ah, mas foi também porque o amor da minha vida tinha mudado para aqui por causa do trabalho e eu estava cheia de saudades lá em Lisboa. Adoro esta cidade, tudo o que tem, as pessoas, a paisagem, esta zona de Portugal. Em 30 minutos posso estar ou na praia ou numa floresta que parece saída de um filme. A comida é maravilhosa e o custo de vida é mais baixo que na capital. Se não conhece, visita, tá?


Agora estou por aqui, já que não posso voltar para o Japão por enquanto. Estou a continuar a desenvolver os meus projectos online e a preparar coisas novas para o meu canal de YouTube. Claro que quero voltar a fazer planos de visita ao Japão para os turistas que estão interessados em experiências mesmo imersivas mas, até que o Japão abra de novo as fronteiras, temos de ter paciência e esperar. Para mim não é uma coisa assim muito dramática ter um tempo para amadurecer as minhas ideias pois, na verdade, estava já a viajar muito entre Portugal e o Japão todos os anos. Então estou a tirar o melhor partido deste tempo. Talvez eu termine finalmente o meu livro de roteiros sobre património cultural do cristianismo no Japão!

Qual a onda que você está criando no momento?

Eu tenho esta tendência de entrar inteirinha no que faço, não há isso de "vamos ver até onde vai", eu já fui! Estou dedicada a promover um melhor entendimento da cultura japonesa em Portugal especialmente através do meu projecto cultural e pedagógico (fazemos cursos, workshops, exposições, etc), do programa de residências artísticas (japoneses que vêm para Portugal e portugueses que vão para o Japão) e da criação de programas de viagem e experiências imersivas no Japão. Este último é assim uma espécie de "turismo alternativo" porque a mim não me interessa a massificação, isso do "pacote" que é um montão de gente e vai tudo aos locais que se vê no cartão-postal. Para mim, conhecer o Japão é ficar na casa das pessoas cozinhando, é caminhar num lugar onde não há a pressão do turismo, é aprender mesmo, mudar por dentro também. Eu comecei a fazer a consultoria neste sentido depois de ter tido uma má experiência a trabalhar para uma agência de viagens. Não valorizavam o que eu desenvolvi ao longo do meu percurso como académica e, na minha opinião, também não valorizavam as expectativas dos próprios viajantes. Então, eu saí dali e estou freelance agora. 

Que tipo de coisa é capaz de te tirar da tua concha?

Qualquer coisa que eu não compreendo muito bem, que me faz coçar a cabeça e perceber que tem ali muito que aprender. Se há uma coisa que eu não encaixo, que não consigo perceber de onde vem, qual o objectivo, que não me identifico, eu vou e procuro expor-me a isso. É brutal mesmo, pode crer, mas eu sempre fui assim. Se havia uma coisa fácil e óbvia, seja aquela pessoa que "clica" logo connosco ou uma matéria da escola que nem precisa de estudar para ter a nota top, não era por aí que eu mais me sentia atraída. Eu sempre senti inclinação para a pergunta "o que é isto?" e, por isso, vou para o mais complicado, o que me desafia. Às vezes dou trambolhão, claro. Mas é melhor não ter arrependimento do que nem querer saber. 


O que te faz chorar um litro de lágrimas?

Outra pessoa chorar, totalmente. Sinto a lágrima quente a escorrer pelo rosto mesmo antes de o meu cérebro processar o que está a acontecer. Acho que tenho uma resposta empática muito forte porque choro mesmo e corro com vontade de abraçar se alguém está a chorar ou a sofrer. Não consigo ver certos documentários nem reportagem na televisão por exemplo, aquilo afecta mesmo. Tem esse lado "florzinha de estufa" em mim, mas eu já gosto disso agora. Antes pensava que era fraqueza, que a vulnerabilidade era meio uma vergonha. Mas uma pessoa aprende a gostar cada vez mais de si e dessas coisas que nos fazem únicos e foi isso que aconteceu comigo. Mas não me leva a um funeral, ok? É que eu vou sair dali de rastos mesmo! 

Qual foi o último sonho de que você se recorda?

Estava num daqueles kaitensushi [restaurantes de sushi com esteiras] mas não era de sushi, era de sobremesas, tudo lindo, bolos cheios de creme! Estou a fazer uma dieta, não como esses bolos maravilhosos há mais de 3 meses e acho que os meus sonhos estão a compensar isso (kkkkkkk). Não é genial como a nossa cabeça faz essas coisas? Agora a sério, eu sonho muito e normalmente lembro de tudo. Felizmente costumam ser sonhos bons, normalmente com muito estímulo em todos os sentidos. Às vezes acordo de um sonho que tinha uma música bonita e fico com pena de a música ter acabado. 

O que você levaria para uma estadia na Terrace House?

Uma almofada com a foto do meu gato. Eu tenho um gato daqueles que resgatam da rua e ninguém quer. Ele tinha problemas de ansiedade e de comportamento, mas quando eu adoptei foi muito bom para nós os dois. Com o passar do tempo ele melhorou muito e agora é o meu companheiro em todos os momentos porque eu trabalho no escritório de casa. Quando viajo é claro que tenho muitas saudades dele. Então, o meu marido manda foto, filme etc. Mas já pensei várias vezes fazer uma pequena toalha ou almofada com a foto dele para levar nas viagens. Levaria para a TH de certeza. 

O que te tira do zen?

Gente sem escrúpulos. Eu fico doida com injustiça! Patife, gente que engana outros, que tem mesmo arte na maneira de enganar o mundo, essa gente tira-me do sério, é tipo wasabi no nariz. Tenho de admitir que deixo de ser uma "lady" nesses casos. Tenho pouca (nenhuma) tolerância para falta de ética e de moral, daquela que não é descuido nem ignorância, é maldade mesmo. 

Qual é a coisa mais Japão que você possui?

Oh, tantas! O Japão "primeiro estranha-se e depois entranha-se". Falar baixo, não forçar beijo e abraço nas pessoas ao contrário do que é normal em Portugal, que você dá dois beijinhos na cara em toda a gente mesmo quando vê a primeira vez , fazer vénias para pedir desculpa, descalçar seeeeeeeeempre o sapato na entrada de casa, beber chá verde constantemente...

Me diz uma coisa que ninguém pode saber.

Eu estou a gostar muito de estar na quarentena (LOL). Será que posso dizer isso? Mas tem um contexto para explicar. É que eu viajo muito por causa do meu trabalho, e o meu marido também. No ano passado eu fiquei quase 6 meses, no total, longe de casa. Nós mudámos para uma casa nova no ano passado e ainda não tivemos oportunidade de passar aqui muito tempo juntos. Agora estamos forçados a isso e está a ser muito bom! 

Encontre a Inês Carvalho Matos no YouTube e no Facebook.

128 visualizações
  • White YouTube Icon
  • White Instagram Icon

© 2017 por Direto do Japão/Roberto Maxwell. Todos os direitos reservados.