Hitotachi - Histórias de Ana Paula Ramos


A primeira lembrança que tenho da Ana Paula foi num trabalho que fiz quando ainda era colaborador da Alternativa, uma empresa de mídia em português aqui do Japão. Ela era repórter e eu estava fazendo um vídeo de celebração do aniversário de uma das revistas que a empresa publica. A ideia era filmar o pessoal da empresa em ação e, como a Ana Paula morava em Osaka, ela veio até Tóquio e nós simulamos umas cenas dela num lugar nada a ver, somente para fazer a gravação. O produto como eu pensei jamais chegou a ser exibido em público mas fazer o trabalho valeu super a pena pelos encontros que proporcionou.


Sou daqueles cariocas bobos que fica encantado com sotaque de outras partes do Brasil. Meus preferidos são o pernambucano e o gaúcho. E a Ana Paula (naturalmente) capricha no gauchês. Lá pelas tantas, durante a gravação, ela me solta a melhor expressão que eu ouvi na vida (até aquele momento): "tomar uma mijada". Lá nos Pampas, o lance parece querer dizer "ser repreendido" ou "levar uma bronca". Foi amor à primeira ouvida e, quando me apaixono, costumo adicionar a expressão ao meu vocabulário com sucesso. (Tem gente até hoje que não sabe que eu sou carioca por causa disso.) Porém, "tomar uma mijada" não rolou. Convivendo com gente de um país cujo presidente da República compartilha no Twitter uma cena grotesca de golden shower no carnaval, qualquer associação com tamanha boçalidade pode parecer perigosa demais. Decidi guardar a expressão para um momento mais oportuno.


Nas últimas semanas, a Ana Paula começou a emplacar uma história boa atrás da outra, todas falando de questões muito pertinentes do Japão atual. Não demorou para que os textos fossem notados e viralizassem, gerando debates acalorados. Para mim, é esse olhar para o que é pauta aliado a uma sensibilidade ao trabalhar os personagens que faz com que as matérias da Ana Paula conquistem as pessoas. Isso é ouro nos dias de hoje! É uma honra poder deixar vocês com essa jornalista e escritora. Aproveitem!


Quem é você na fila do lámen?

Não consigo ouvir essa pergunta e não me imaginar de fato em uma fila de lámen. Eu acho que seria a esquisita, a estrangeira caladona, com as mãos nos bolsos, esperando a minha vez. Enquanto grupos de adolescentes japoneses na frente e atrás de mim se perguntam se eu sei usar os hashis [talheres em formato de palito]. Hahaha. Enfim, sou uma gaúcha que atende pelo nome de Ana Paula Bretschneider Ramos. Tenho 28 anos e hoje sou uma jornalista e escritora perdida no Japão, na luta para sobreviver nesse mundão e tentando canalizar as energias em ações positivas, que possam agregar valor na vida de outras pessoas.

Onde você está se escondendo?

Estou literalmente escondida em algum lugar da cidade de Hamamatsu, Shizuoka. Esmagada por dois campos de cebola e perto de um mar de águas perigosas. (Juro que não é brincadeira.)

Qual a onda que você está criando no momento?

Como jornalista estou tentando jogar uma luz sobre assuntos importantes relacionados à vida no Japão. Como atuo de forma independente no momento, tenho escrito para a minha página no Medium e fico muito feliz com os resultados que tenho obtido com as minhas publicações. A sensação é de estar cumprindo a minha missão social. Como escritora, tenho trabalhado em três obras literárias que produzi nos últimos anos e espero que estejam prontas para a publicação até o ano que vem. 

Que tipo de coisa é capaz de te tirar da tua concha?

Basicamente, desgraça. Hahaha. O ser humano tem a mania de se acomodar e eu não sou diferente. Às vezes preciso de um empurrão do universo para agir e então começo a colocar os projetos em prática e buscar novos caminhos.

O que te faz chorar um litro de lágrimas?

Situações de fora do meu controle, infelizmente. Por ser jornalista, muitas pessoas me procuram para contar suas histórias, o que estão fazendo, experiências negativas que tiveram. Posso oferecer um café, um abraço e uma matéria e fico na torcida que o meu humilde trabalho possa gerar alguma reação positiva. Mas a verdade é que o mundo está cheio de injustiças que ninguém consegue mudar. Se você parar para ver as coisas ruins, a vontade as vezes é sentar e chorar mesmo.


Qual foi o último sonho de que você se recorda?

Um sonho bem bonito! Estava com a minha família do Brasil e o meu namorado que mora na Suécia. Se a saudade já era difícil antes, agora com a pandemia só resta sonhar mesmo! Fico feliz quando as experiências oníricas me permitem dar um abraço em alguém que faz falta no meu dia a dia.

O que você levaria para uma estadia na Terrace House?

Um dos meus bolos de cenoura que deram certo. Geralmente sou péssima na cozinha, quando faço algo que deu certo, sinto um orgulho bobo. Quero que os outros provem hahaha. E adoraria ver os japoneses do Terrace House descobrindo que bolo de cenoura é bom! Trocas culturais sempre me encantam. 

O que te tira do zen?

Ignorância, intolerância, racismo, homofobia, machismo, xenofobia e o conservadorismo de forma geral. Sou aquela sonhadora que acredita em um mundo pós-apocalíptico onde todos serão respeitados e terão direitos iguais.

Qual é a coisa mais Japão que você possui?

Meu hábito de águas termais. Sou uma verdadeira japonesa quando vou nas águas termais. Sei onde deixar minha toalhinha, sei quando é obrigatório jogar baldes de água no corpo e tomo banho de chuveiro sentada sem dificuldades. E assim como os japoneses nas águas termais, não tenho pudor nenhum. Hahaha

Me diz uma coisa que ninguém pode saber.

Sou uma alma inquieta. Tenho poucos amigos que consigo falar sobre isso. Já sofri muita solidão no Japão e, quando parece que a alma vai explodir dentro do corpo, escrevo poesias.


Encontre a Ana Paula Ramos no Medium, no site Brasileiras pelo Mundo e no Facebook.

Foto gentilmente cedida por Johannes Ahlström (johannesahlström.se).

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