Hitotachi - A voz de Daniel Oshiro



Nos meus primeiros anos de Japão, eu costumava ir muito para Hamamatsu, uma cidade que fica na província de Shizuoka. Naquela época, eu era intercambista na Universidade de Shizuoka e por mais de três anos frequentei Hamamatsu quase que semanalmente. Acabei fazendo meu trabalho de campo para o mestrado por lá, uma pesquisa era sobre a relação entre identidade e educação na comunidade imigrante brasileira. Na época — e ainda hoje — Hamamatsu era a cidade com a maior população brasileira do Japão.


Foi lá que eu conheci o Daniel Oshiro, Dobrado para os amigos. Rapidamente percebi que o cara vivia uma grande contradição. Tímido, daqueles que se sentiam desconfortáveis em ser o centro das atenções, o Dobrado era o primeiro a ser notado quando chegava com o seu grupo. Único negro entre cinco ou seis meninos e meninas nipo-brazucas que dividiam uma extrema melancolia em viver num país onde eram enxergados como problema, Dobrado também era o último a se pronunciar. "Sou gago", ele sempre se justificava.


Acontece que o tempo extra que o Daniel precisava para falar sempre me pareceu muito pertinente. Quando abria a boca, o Dobrado falava muito melhor do que seus amigos mais eloquentes. Suas ideias sempre eram mais interessantes. Valia a pena esperar.


No entanto, o Japão não estava (e poder ser que ainda não esteja) preparado para ouvir a voz do cara. Ele foi para o Brasil, onde não somente cresceu como, também, se fez ouvido. Do outro lado do mundo, ele encontrou um lado de si mesmo que o Japão não o deixava descobrir. Firmou-se no cenário da programação de dados, se engajou mais fortemente em movimentos sociais e é o nosso convidado de hoje aqui no Hitotachi. Aproveitem!


Quem é você na fila do lámen?

Eu sou o Dobrado. Preto, japonês, gago e um pouco autista. Programador, mas queria ser hacktivista. Compilo o kernel do Linux desde dos quatorze e sou parado pela polícia de Hamamatsu desde os dezesseis. E mesmo hoje, com trinta e dois anos, morei mais tempo no Japão que no Brasil.

Onde você está se escondendo?

Atualmente em Poços de Caldas - MG. Em época de covid-19, esta sendo um bom lugar para se esconder.

Qual a onda que você está criando no momento?

Faço pão, ainda compilo kernel, tenho trabalhado numa empresa como programador e faço parte do núcleo de diversidade. Desde que cheguei no Brasil tenho tido muito contato com minhas raízes e grupos minorizados. E por isso tenho dedicado parte da minha vida a isso.

Que tipo de coisa é capaz de te tirar da tua concha?

Quando alguém que eu gosto é atingido. Aprendi lá em Hama que a gente protege os nossos e venho fazendo isso desde sempre. E, hoje, no mundo que vivemos, cada vez mais preciso me proteger e proteger os meus.

O que te faz chorar um litro de lágrimas?

Muitas coisas... Mas, hoje em dia, nem tempo pra isso a gente tem mais, né? Aprendi muito com as dores das Aya. Com as perdas de Edward e Alphonse. As derrotas do Luffy. A jornada de Musashi.

Qual foi o último sonho de que você se recorda?

Eu tenho acordado muito durante meus sonhos. Percebi que meu rosto coça durante a noite, por isso acordo com esse incomodo. Já que, em tempos de quarentena, nem durante o sonho eu levo as mãos ao rosto. xD


O que você levaria para uma estadia na Terrace House?

Não seria "o que" e sim "quem". Eu levaria uns dois moleques lá de Hama, só pra gente tacar o terror naquela casa e chocar o povo japonês. Hahaha! Mas acho que eu sozinho já causaria um estrago naquela casa. Sou aprendiz do Chico Science: "eu me organizando posso desorganizar".

O que te tira do zen?

"Eu não sou racista/machista/homofóbico, mas..."

Qual é a coisa mais Japão que você possui?

Não saber abraçar, talvez seja a mais perceptível. Direto acontece aqui no Brasil, das pessoas me abraçarem e eu ficar igual um boneco de Olinda sem saber o que fazer, com os braços pendurados. Mas o objeto mais japonês que eu possuo é aqueles hashi gigantes para cozinhar.

Me diz uma coisa que ninguém pode saber.

Que se perguntar pelo Dobrado em Hamamatsu, vão saber todos meu podres...

・ヾ(。><)シ

Encontre o Daniel Oshiro no Twitter (@dobrado) e no site (highlabs.github.io).

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