Festival relembra as oiran, cortesãs de luxo da Era Edo



Os festivais tradicionais (matsuri, em japonês) é daquelas coisas que a gente sempre que acha que vai acontecer todos os anos. Se bem que, quem estava no Japão quando ocorreu o Grande Terremoto do Leste, em 2011, sabe que a coisa não é bem assim. Grandes tragédias são comuns na Terra do Sol Nascente e festivais são cancelados quando isso ocorre. A pandemia do novo coronavírus não está sendo diferente.


Um dos festivais que rola no fim de setembro é o Shinagawa Shukuba Matsuri. Organizado desde 1990, ele relembra o passado do hoje município de Shinagawa, em Tóquio. Durante o Período Edo, a região que fica no sul da capital japonesa era o primeiro ponto de parada da Rota Tokai, que ligava a atual Tóquio a Kyoto, onde estava instalada a corte imperial. A rota era movimentada já que ligava os principais polos do país. Nessa época, o xogum (líder militar supremo) também obrigava os daimyō (líderes militares locais) e suas esposas a passarem tempos alternados em Edo (como Tóquio era chamada na época). Era uma forma de forjar uma relação de lealdade. Muitas dessas pessoas importantes usava a rota e, claro, suas paradas, onde havia locais de descanso e alimentação para os viajantes e animais de tração.


Com o tempo, começaram a surgir em Shinagawa diversos estabelecimentos de lazer também foram sendo abertos por ali e o local se tornou um importante distrito de entretenimento nos arredores de Edo . Um dos destaques eram as oiran, cortesãs de luxo, que eram verdadeiras empreendedoras do mundo do sexo na época. Diferente de prostitutas comuns, as oiran tinham muito mais liberdade em seus negócios. A profissão só entrou em declínio no final do século 19, quando as gueixas começaram a despontar como um novo estilo de entretenimento de alto luxo, mais descolado em comparação com as formais oiran.


Em 2019, a cantora e atriz franco-germânica Adeyto teve acesso privilegiado ao Shinagawa Shukuba Matsuri. Ela pode fotografar de perto o Desfile das Oiran, um dos pontos altos do evento. Radicada no Japão desde 1998, Adeyto já participou de filmes e novelas, além de ter lançado três álbuns no país e compartilhou com o Direto do Japão a experiência. Confira!



Shinagawa Shukuba Matsuri, por Adeyto


No ano passado, tive sorte de ver o mais belo desfile de cortesãs de alto nível (oiran, em japonês) de Tóquio, durante o Festival Shinagawa Shukuba. Tive muita sorte de ver as oiran e fotografá-las porque, por causa da covid-19, o festival de 2020 foi cancelando e não sabemos quando vamos poder participar dele novamente.


Essas belas damas não são oiran de verdade porque essa era uma profissão que existia antigamente, na Era Edo (1603-1868). Elas também não são gueixas. São apenas belas japonesas, selecionadas para reviver o estilo das oiran neste desfile incrível. Todas as cinco jovens participantes tiveram que aprender e treinar como andar como uma oiran para o festival. Cada uma das grandes sandálias de madeira que elas estão calçando pesa 2 quilos. A peruca pesa 4 quilos e o quimono, cerca de 20 😱😱😱.


As oiran de posição mais alta, chamdas de tayū ou dayū, tinham prestígio e podiam escolher dormir com os clientes. Caso elas optassem por isso, uma noite com elas era caro, o valor de um ano de salário de um vendedor.




Comparadas com as yūjo (mulheres da noite, em tradução literal), cuja atividade principal era oferecer serviços sexuais, as oiran eram, antes de mais nada, profissionais do entretenimento. Para ser uma delas, uma mulher deveria dominar uma série de habilidades que eram ensinadas a ela desde a infância, incluindo a tradicional arte do chadō (a cerimônia do chá), o ikebana (arranjo de flores) e a caligrafia. As oiran também aprendiam a tocar instrumentos como o koto, o shakuhachi, o tsuzumi, o shamisen e o kokyū. Os clientes também achavam importante que elas tivessem o hábito da leitura e conversassem e escrevessem com inteligência e elegância.


Com o passar do tempo, as aparência das oiran foram se tornando mais sofisticada. No seu apogeu, o início do Período Edo, elas usavam oito ou mais presilhas de cabelo feitas de casco de tartaruga, prata e pedras preciosas num penteado feito com muita cera chamado date-hyōgo.




As vestimentas de uma oiran são formadas por várias camadas de quimonos de seda repletos de estampas. O cinturão, chamado de obi, tinha o laço para a frente. Durante o Período Edo, este obi passou a ser fabricado com materiais mais largos e rígidos, tornando as vestimentas mais pesadas e desconfortáveis. Por cima do cinturão, ainda se usava o pesado uchikake, um quimono formal, muito ornamentado e acolchoado, que era usado aberto.


Quando estavam na rua, as oiran usavam o koma geta [lê-se koma guetá], sandálias com 3 saltos e 20 cm de altura feitas de madeira de pawlonia. Os calçados costumavam ser relativamente pesados para o tamanho das mulheres mas as ajudavam a não andar normalmente. Ou seja, elas tinham que caminhar deslizando as pernas, num movimento chamado de suri-ashi, com a ajuda de dois servos, chamados de wakaimono [veja no vídeo abaixo].




As oiran não usavam o tabi, a meia japonesa, porque mostrar os pés era considerado um dos pontos de eroticidade da vestimenta que podia pesar cerca de 30 quilos. Por isso, elas precisavam de muita ajuda para se vestir. Estou muito feliz de poder ter visto este festival e poder stalkear as oiran de todos os ângulos.


Adeyto é uma fotógrafa, cinegrafista, atriz e musicista franco-germânica, baseada em Tóquio. Você pode ver outros vídeos dela no canal do YouTube.

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