• Roberto Maxwell

Falta de sexo na pandemia? Conversamos com um psicólogo sobre o assunto.

Atualizado: Mai 20



Com tantas discussões políticas e situações de vida e morte, a falta de sexo não tinha ganho destaque entre as inúmeras questões envolvendo pandemia do novo coronavírus. No entanto, nos últimos dias, parece que todo mundo acordou para o fato de que o contato íntimo é tão importante para nós quanto lavar bem as mãos ou usar máscara.


Num primeiro momento, coletei uma série de depoimentos de brasileiras e brasileiros que moram no Japão e contam como a pandemia tem afetado a intimidade. Você pode ler essa primeira parte aqui. Nesta segunda parte, convidei David Schuchter, psicólogo especialista em relações de gênero e sexualidades, para responder a algumas perguntas sobre sexo neste momento tão delicado em que estamos vivendo. Confira.


Você tem recebido consultas de pacientes ou de pessoas próximas de como lidar com a questão? Qual o teor dessas consultas?

Não tem sido um tema central, não. inegavelmente os impactos e os riscos que o corona vírus trazem é que têm sido o geradores de muita angústia dos pacientes. O sexo aparece apenas como um dos elementos que estão sendo afetados devido a pandemia.


Em termos de bem-estar psicológico, o quanto o sexo é importante para a gente?

O sexo, e consequentemente o orgasmo, são responsáveis por liberar hormônios como a oxitocina, que é gerador de afetos como amor e felicidade, e a dopamina, que influencia diretamente nas nossas sensações de relaxamento e no alívio das dores. Tudo isso é fator responsável pelo nosso bem estar geral.


Numa situação como essa que estamos vivendo, em que ponto o desejo sexual pode ser afetado?

Isso vai variar de indivíduo para indivíduo pois é preciso considerar uma série de fatores, o principal deles é como o sexo é visto por cada um?. É isto que irá fazer com que uma pessoa sinta menos ou mais falta de sexo do que a outra. Mas o que tenho escutado dos pacientes e amigos é que muitos estão sentindo mais desejo, porque o momento atual suspende as possibilidades de encontros.


É possível controlar o desejo sexual?

Não, porque este desejo é inato, ou seja, ele tem função biológica como a procriação, por exemplo. Mas claro, há possibilidade de cada um não fazer sexo ou não se masturbar. Isso não quer dizer que seu inconsciente não irá se manifestar através de pensamentos e sonhos.


Muita gente tem relatado que está praticando yoga, se exercitando ou fazendo outras coisas para lidar com a falta de sexo. Usar receitas para redirecionar a energia sexual é saudável?

Se a receita for outras atividades que tragam prazer não há problema algum. Inclusive é até bacana para que o sexo ou a masturbação não se tornem um condicionante de satisfação. Várias outras atividades também nos trazem prazer como, por exemplo, uma conversa pelo telefone com amigos, comer algo que a pessoa goste muito, fazer exercícios físicos, ler etc.


Tenho ouvido histórias de gente que não está aguentando ficar sem sexo. O que, como psicólogo, se pode dizer para uma pessoa que fura o isolamento social para transar?

Partindo da diretriz da minha profissão que diz que não devemos passar receitas ou conselhos sem conhecermos a histórico psíquico social de quem nos procura, proponho uma reflexão sobre a necessidade versus a vontade. Sexo é de fato muito prazeroso mas não podemos deixar de considerar que o orgasmo e o ato sexual são momentâneos, Já a nossa saúde e a dos que amamos não tem um prazo determinado. Temos várias outras coisas que irão nos trazer felicidade através dos tempos. Então, pensando nisso, qual risco e consequência são melhores assumir? 


Vi muita gente se queixando de carência e solidão. O que pode se dizer como conforto para estas pessoas?

A maioria das pessoas no mundo todo estão com esse mesmo sentimento de desamparo. Também é importante que analisemos nossas carências. Este momento pode ser bacana para isso. Você está mesmo solitário ou solitária? Ou está apenas sem parceiro ou parceira? E as pessoas que convivem com você, como anda sua relação com elas? Será que o afeto, a boa conversa, os pequenos gestos de carinho não se tornaram tão rotineiros que você está pensando que eles não existem? E por que você está se sentindo tão só, se nós também somos capazes de nos fazer companhia? O autocuidado, fazer planos, valorizar o que conquistamos até aqui é um baita exercício de autocarinho. E termos em mente que, quanto mais respeitarmos as recomendações necessárias, mais rápido voltaremos aos abraços e beijos.


Ainda não se tem certeza se o covid-19 é ou não uma doença transmissível por via sexual. Ainda assim, ele mexe com algo ainda mais básico que é o contato físico. Do seu ponto de vista de psicólogo, é possível que essa pandemia gere um medo do contato sexual como houve na época da explosão da aids?

Pois é, estudos estão sendo desenvolvidos neste sentido. Esta pergunta é ainda mais complexa porque a ciência ainda não conhece todo o comportamento do vírus. Mas podemos destacar alguns pontos para pensar em um possível cenário. Temos que considerar que o HIV/aids  foi detectado antes da popularização da internet e em um tempo em que vários movimentos sociais identitários não tinham a voz que têm hoje. Isso fez com que o HIV/aids se tornasse uma infecção de gueto e que as pessoas pensassem que o simples fato de você beijar uma pessoa infectada faria com que você se infectasse, pesando o estigma contra os doentes e contra os que davam suporte a estes pacientes. Hoje, devido à facilidade de acesso a informações e aos avanços na ciência, sabemos que os vírus não escolhem gênero, orientação sexual e classe social. Então, as precauções irão e devem existir sempre. Nossos avanços científicos e sociais fazem com que vários erros cometidos com outras infecções não se repitam possibilitando que, com pequenas mudanças, possamos retomar nossos hábitos anteriores à pandemia. 


imagem: Michael Prewett via Unsplash

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