Danielly Utsumi conta como conseguiu o visto para viver com a esposa no Japão

Atualizado: Set 22



Faz anos que Danielly sonha em viver fora do Brasil. Ela sentia que era possível ter mais segurança e qualidade de vida em outro país. Há cinco anos, ela conheceu Maristela e as duas se apaixonaram. Em 2018, as duas se casaram no Brasil e, no final deste mesmo ano, ela conseguiu convencer a esposa a imigrar. A escolha pelo Japão passou pela situação de Maristela que é da terceira geração de descendente de japoneses e, por isso, tem o direito de solicitar um visto de residência que permite que ela viva e trabalhe no país sem restrições. O visto com os mesmos direitos pode ser estendido ao cônjuge, uma situação única entre os estrangeiros que vivem na Terra do Sol Nascente.


Danielly, no entanto, não pôde desfrutar da permissão porque o casamento com o Maristela não é reconhecido no Japão. Ainda assim, Mariela partiu para a terra dos seus ancestrais. As duas precisaram viver separadas por cerca de 8 meses até que, com a ajuda da especialista em imigração Eremi Rey Hermosilla, elas conseguiram encontraram uma solução. Em março deste ano, Danielly finalmente conseguiu a permissão de residência no Japão. Ela conta nesta entrevista sobre o processo e os momentos de ansiedade que o casal viveu até o final feliz.


Quais foram as primeiras informações que você recebeu quando foi buscar orientações sobre como vir com a sua esposa para o Japão?

Em buscas na internet, vimos em muitos sites que o Japão não aceita casamento LGBT e que não seria possível vir. Isso antes da Eremi. Vimos pelo Facebook casais LGBT conseguiam fazer o processo com a Eremi. Daí, enviamos um email pra ela pedindo informações


Como foi o processo de vinda dela? E os procedimentos burocráticos?

A Maristela é descendentes de japoneses. Ela é neta de japoneses. Eu sou esposa dela, sem nenhuma ascendência japonesa. Ela veio com uma empreiteira, o que foi muito fácil. Lá no Brasil tem várias dessas empreiteiras. Ela levou a documentação que comprova que ela é descendente de japoneses. Só alguns documentos que a empreiteira pede que são bem específicos: foto da família, koseki [tohon, registro de família], certidão de nascimento, certidão dos pais, essas coisas. Os procedimentos são todos feitos pela empreiteira. Ela não faz nada. A empreiteira faz tudo, inclusive dá a passagem aérea e a moradia aqui no Japão.


E você?

No meu caso foi diferente. Eu tive que fazer dois processos. O primeiro processo é o de vinda para cá. Na época que eu fiz, vim com visto de turista com o objetivo de visita a parente. Eu vim visitar a minha esposa. O procedimento é o mesmo de um visto normal. Eles pedem tudo: comprovante de renda, comprovante de residência… Como é visita a parente, eles precisam de uma comprovação de que a pessoa é meu parente, do vínculo que a gente tem. Além disso, precisei provar que eu tinha capacidade de me manter aqui durante a viagem com extrato bancário, comprovante de renda, essas coisas.


Quando eu cheguei aqui, fiz o segundo processo que é um pedido de mudança de status de visto para visto de dependente financeiro ou visto de atividade designada. Enquanto eu não recebi esse visto e o meu zairyu card [cartão de identificação de estrangeiros fornecido pelo governo japonês] com a data certinha do meu visto, a gente não conseguiu ficar calma.


O procedimento burocrático, no meu caso, foi chato porque, como eu apresentei que ia visitar um parente e aleguei que ia pedir mudança de status para visto de dependente financeiro, eles pediram para que eu enviasse os holerites dela. Inclusive, os holerites sem as cobranças da empreiteira já que a empresa cobra umas parcelas para fazer todo esse processo. Ninguém faz nada de graça. E, aí, eu tive que esperar mais um mês, além do que eu tinha programado, para poder vir para cá.


Em algum momento, vocês ficaram apreensivas? Tiveram medo de não conseguirem viver juntas no Japão? Como foi o sentimento até o momento de você conseguir o visto?

Sim, o tempo inteiro, desde o início, desde antes de começar o processo quando a gente conversou com a Eremi a respeito, tirou todas as dúvidas, fez a entrevista com ela. Foi ficar apreensiva do início ao fim, de 2018 até março deste ano. Mas, depois que a gente conseguiu, foi um alívio, a gente conseguiu respirar. Mas até receber isso, era o tempo inteiro pensando sobre o fato de não conseguir, de dar errado… Por mais que a Eremi tenha tentado acalmar a gente, falando que a papelada estava toda certa, sempre tem aquele medinho de dar alguma coisa errada. Mas, graças a Deus, não deu não. Foi tudo certinho.


Como vocês se sentem hoje? O que esperam do futuro no Japão?

Nós nos sentimos bem por estarmos aqui e tranquilas por eu poder renovar o meu visto. Meu visto é só de um ano mas eu posso renovar todos os anos. Uma vez que eu estou com ela, eu consigo renovar direitinho. Mas, quanto ao futuro no Japão, a gente não sabe. A gente está naquela de que só Deus sabe o que vai ser. Porque a gente não veio para cá com o objetivo de ficar. A gente queria vir para guardar um dinheiro e ir embora. Só que parece que o destino prega peças. Por enquanto, a gente está ficando aqui no Japão. Não sei até quando, de verdade. Mas eu espero que, se for para a gente ficar aqui, sair dessa vida de fábrica porque é difícil para qualquer estrangeiro aqui no Japão.

O que você diria para outros casais homoafetivos que estão na mesma situação que vocês?

Se você realmente quer sair do Brasil, se você quer mesmo buscar uma vida melhor fora do Brasil, você tem que saber primeiro o que procura. Para vir pro Japão, a gente procurou qualidade de vida e segurança. Principalmente segurança porque casais homoafetivos no Brasil, além do preconceito, sofrem violência física. Então, eu me sinto muito segura no Japão, me sinto muito tranquila aqui, graças a Deus. Isso me alivia bastante. Então, eu digo para esses casais: “o que você busca ao sair do Brasil e vir para o Japão?”.


Porque, querendo ou não, apesar de você ter uma qualidade de vida boa no Japão, você trabalha muito, muito mais do que no Brasil. E benefícios trabalhistas são bem poucos. Ainda assim, na minha percepção, vale a pena por causa do poder de compra que você acaba adquirindo, da qualidade de vida que você acaba adquirindo. Você trabalha muito mas você ganha o necessário para ter uma vida confortável. Não é como no Brasil que você trabalha para caramba e tem uma vida muito difícil, com um salário mínimo. Por isso tudo eu acho que vale a pena. Eu digo, assim, vocês querem sair do Brasil e têm a oportunidade vir pro Japão? Venham! Mas venham conscientes de que também não é fácil.


Essa entrevista é parte de uma reportagem que foi escrita em parceria com o JP Guide. Confira a história completa neste link. Veja também a entrevista com a especialista em imigração Eremi Rey Hermosilla.

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