• Mauricio Osaki

Como o Vietnã se tornou um exemplo bem sucedido de combate ao coronavírus



Minha conexão com o Vietnã já data quase uma década, quando rodei o filme O Caminhão do Meu Pai durante meu mestrado na NYU. Coincidentemente este projeto nasceu de um desejo frustrado de realizar um filme no Japão. A verba era curta e fui parar ao norte do Vietnã que me lembrava muito o Brasil da minha infância, a qual passei viajando pelas estradas de terra do Norte brasileiro com meus pais, um engenheiro e uma professora. Somente em meados de 2018 que vim a residir a maior parte do tempo em Saigon (como os locais se referem à Cidade de Ho Chi Minh). Este pequeno filme rodado aqui foi finalista do Oscar e me abriu as portas no país para outros trabalhos, incluindo meu primeiro longa metragem local, além de uma série de trabalhos em publicidade.


No início de 2020, logo após filmarmos as últimas cenas do filme, começamos a escutar as notícias sobre um novo vírus que estava assolando a China. O Vietnã faz fronteira com a China ao norte, perto das nossas locações. Além disso, como já morei em Pequim, tenho muitos amigos no país e as notícias foram chegando como uma avalanche. Em um curto espaço de tempo, a cidade chinesa de Wuhan entrou em lockdown e a vizinhança, em sinal de alerta. Meus pais estavam com planos de viajar pela Ásia no começo do ano e logo tivemos que adiar todo o itinerário que incluia China e Vietnã.


A História já ensinou lições duras a esta região da Ásia, com epidemias como a do SARS, que causou grande impacto humano e econômico em vários países mas foi contida no Vietnã. O caso deixou um legado positivo e o país mostrou para o mundo como lidar com uma epidemia com recursos limitados.


Com a chegada das notícias sobre o novo coronavírus, o Vietnã mostrou, novamente, que sabe agir rápido: as fronteiras foram fechadas, o uso de mascaras, recomendado inicialmente, logo se tornou obrigatório e a checagem da população foi minuciosa e seguida da boa e velha contenção de pessoas infectadas, suspeitas ou que tenham tido qualquer contato com o vírus. Para muitos talvez parecesse exagero mas, a mim, me parecia bastante razoável, dado que amigos meus em Pequim já relatavam que os condomínios estavam fechados, com elevadores desligados e um rodízio tinha sido implantado localmente para a população ir ao supermercado.


Atitudes rápidas e precisas

Em Saigon, as medidas também se estendiam a situações até então impensadas. Por exemplo, o síndico do prédio onde eu moro, que nunca havia me pedido nada além dos pagamentos, pela primeira vez pediu para verificar meu passaporte e que eu relatasse qualquer viagem recente. Estabelecimentos comerciais de qualquer natureza, pelos quais pessoas que foram confirmadas com o novo coronavírus passaram, tiveram seus nomes anunciados publicamente. Todos os que estiveram no local tinham que se apresentar compulsoriamente para testagem. Passageiros chegados de voos internacionais foram encaminhados para quarentena obrigatória fora das grandes cidades.



Sites ou blogs que venham a ser considerados disseminadores de “fake news” não são permitidos no país. Por isso, não houve disseminação de teorias conspiratórias. Aqui, vale uma ressalva. Pode ser o meu desconhecimento de blogs locais ou falta de capacidade para mergulhar nas mídias sociais em língua vietnamita mas realmente tenho a impressão de que a desinformação generalizada que é comum na internet não ocorre aqui. A informação sobre o novo vírus foi clara e centralizada.


O uso de máscaras é algo comum entre os vietnamitas. Grande parte da população usa a motocicletas do tipo scooter para se locomover nas cidades e o uso de mascara é tão comum quanto o do capacete, embora só o segundo tenha sido, até então, obrigatório. Por isso, é

muito fácil achar em farmácias, lojas de conveniência e supermercados desde máscaras cirúrgicas até aquelas reutilizáveis de tecido. Isso em qualquer época do ano.


Acredito que todos estes elementos a capacidade de mobilização rápida e eficaz do governo e os hábitos e a cultura da população local fizeram do Vietnã um dos países menos afetados pela covid-19. Em meados de abril, o país tinha por volta de 300 casos e nenhuma morte. Todos os pacientes foram numerados e a coleta de informação sobre local, circunstância e contatos resultaram em um sistema de rastreamento e controle que foram eficazes para controlar a situação.


Ainda assim, o país preventivamente entrou em quarentena em abril, para ter absoluta certeza de que a situação não fugiria ao controle por nenhum fator inesperado, o que acabou ocorrendo em alguns países vizinhos. Restaurantes, bares, cafés foram fechados para o público. Voos foram suspensos. Aulas, que já estavam em recesso, assim ficaram. Os escritórios deixaram de funcionar e os aplicativos de transportes funcionavam somente parcialmente.


Como consequência o que vi em Saigon se tornar praticamente uma cidade-fantasma. Minha rotina incluía natação no centro esportivo local, desjejum nos populosos cafés do meu bairro, reuniões no centro da cidade, almoços na rua, visitas a locações, jantares com amigos... De repente, tudo isso foi resumido a caminhadas matinais no bairro e duas idas por semana ao supermercado local para reabastecimento. Os serviços de entrega de comida estavam funcionando normalmente mas o que se via era uma cidade parada e uma população bastante disciplinada.


O ceticismo do mundo

Porém, tamanha eficácia vinda de um governo de partido único e sem recursos abundantes trouxe muito mais desconfiança do que celebração da mídia internacional. As primeiras reações eram de total desconsideração ou completo ceticismo. Apesar disso, logo os observadores internacionais, epidemiologistas estrangeiros e até a própria OMS, que tem presença no país, passaram a endossar uma realidade que parecia impossível: um país em desenvolvimento do Sudeste Asiático havia controlado o tão perigoso vírus sem nenhuma fatalidade.


Aqui, vale a pena voltarmos à história dos pacientes numerados, mais especificamente ao de número 91 que, a essa altura dos acontecimentos, ganhava toda a atenção na mídia local. Ele era um dos únicos internados em estado crítico. Trata-se de um piloto britânico, recém contratado pela Vietnam Airlines, que estava com os pulmões praticamente inoperantes e, por isso, respirava com ajuda de aparelhos. Tudo indicava de que seria a primeira fatalidade no país e a história ganhava volume por se tratar de um estrangeiro.


Todo o esforço, definido pelos locais como o maior desde o fim da guerra de libertação do país, seria colocado em cheque se eles não conseguissem salvar este paciente europeu. Profissionais de saúde estavam dedicados com afinco ao caso e a mobilização chegou a atrair voluntários que manifestaram a intenção de dar, literalmente, os pulmões para que o Paciente 91 pudesse voltar a respirar e viver. A situação foi pronta e obviamente descartada pelos especialistas. Lembro de um colega me dizer: “Já fizemos muito por ele, não da para desistir agora. Se ele morrer, o que vão pensar dos nossos médicos?”.


Depois de 68 dias no ventilador, o Paciente 91 se recuperou e ganhou nome. Já de volta à Escócia, Stephen Cameron de 42 anos, apareceu na BBC ainda se recuperando da doença e deixando um alerta que, em bom português poderia ser traduzido como "não é só uma gripezinha".


Hospitais vazios

Para mim, as duas semanas de quarentena se passaram com certa tranquilidade, com exceção de um pequeno pedaço de frango que eu comi e me deu o que parecia ser um principio de intoxicação alimentar. Sem titubear, fui até um hospital perto de casa e o cenário que encontrei foi surpreendente, algo que eu nunca havia visto. Tendas e equipes de teste estavam de prontidão logo na entrada e, no resto do hospital, havia somente o som do ar-condicionado misturado ao ruído eletrônico de jogos de celular.



No hospital praticamente vazio, os consultórios todos estavam de portas abertas e, dentro deles, os médicos sentados em suas cadeiras, brincando com o celular para passar o tempo já que, realmente, não havia ninguém. Felizmente, a intoxicação alimentar tinha sido um falso alerta mas todo o resto era fato; os hospitais estavam vazios ou seja, como a própria OMS relatou, se a epidemia estivesse se alastrando, o cenário seria visível no sistema de saúde local.


Ao final da última semana de quarentena, recebi uma ligação de uma agência de publicidade

a serviço do Facebook. Eles estavam com a idéia era criar um videoclipe sobre o sucesso do Vietnã pós-pandemia. Nas semanas que se sucederam, enquanto eu via amigos e familiares preocupados com a expansão do vírus mundo afora, eu viajava por este país lindo, filmando

paisagens e músicos que celebravam a cultura local. Alguns proprietários locais estavam divididos entre um sentimento de alívio e orgulho e uma apreensão sobre a situação financeira, já que não há turistas estrangeiros.



No último dia 25, a notícia de que um novo caso foi detectado no Vietnã depois de mais de 100 dias chegou à imprensa. O Paciente 416 é um aposentado de 57 anos da cidade de Da Nang, região turística no centro do país. Mais uma vez o governo agiu rápido. Oitenta mil pessoas estão sendo evacuadas, a cidade de Da Nang entrou em quarentena e várias outras regras que tinham sido afrouxadas estão de volta à nossa vida, como o fechamento de bares em várias cidades. Seis dias depois, o país registrou as duas primeiras mortes: um homem de 70 anos e outro de 64. [Até o momento de publicação deste texto, o número de mortos chegou a seis.]* A esta altura já há uma desconfiança sobre falha no controle das fronteiras. Mesmo que tenhamos voltado à "normalidade" e o governo esteja agindo rapidamente, este episódio nos lembra a frágilidade dos tempos que estamos vivendo.


Um povo que investe em si mesmo

Para muitos o Vietnã é o país da resiliência mas o que me comove mais é a engenhosidade e o carisma do povo local que se adapta facilmente à impressionante velocidade com que o país vem se desenvolvendo. Aqui vão alguns dados para aqueles que adoram descrever o país com o adjetivo "pobre". No último PISA, um dos mais conceituados exames de educação do mundo, os vietnamitas ficaram em quarto lugar em ciências, na frente de todos os países europeus. Eles também atingiram a décima terceira posição em interpretação de texto, na frente de Japão, da Dinamarca e do Reino Unido, só para citar alguns.


O país tem um entendimento claro de que os vizinhos que prosperaram fizeram investimentos pesados na educação do próprio povo. Embora os números, a metodologia e os resultados do PISA possam ser questionados, e há inúmeros artigos na internet a respeito, é inegável que há uma valorização enorme da educação na Ásia, um contraste com o movimento anti-intelectualismo que o Ocidente vive.



Estamos no final de julho quando escrevo este texto e a campanha que fiz para o Facebook já tem milhões de visualizações. Depois dela, já estive em sets de filmagem de outros dois trabalhos. A piscina local foi reaberta e os restaurantes estiveram cheios novamente. Porém, com a situação de Da Nang, entramos mais uma vez num momento de restrições. Ainda assim, embora o setor turístico ainda esteja sofrendo grande impacto, a previsão é de crescimento do PIB no país. (Aliás, a viagem dos meus pais acabou mesmo ficando pro ano que vem ou para o próximo.) O grande esforço do governo, a força do sistema de partido único, o nível educacional e a experiência passada certamente contribuíram em muito para o resultado alcançado.


Mas, minha pequena experiência na Ásia me faz pensar que, talvez, o que realmente tenha feito e continua fazendo a diferença numa pandemia sobre a qual temos tão pouco conhecimento é a disciplina e o senso de comunidade que existe aqui e em muitos outros países asiáticos. Este senso de coletividade, que talvez tenha se perdido um pouco nas ditas Civilizações Ocidentais, aqui me parece que se sobrepõe às instituições.


Há uma ideia de pertencimento (ou respeito e até dever) com relação à comunidade. Cada membro é importante para o todo e, por isso, este deve se sobrepor aos interesses individuais. Sendo assim, ao estarem juntos os indivíduos entendem que não serão deixados desamparados. Não por acaso, eu também me sinto cada vez mais amparado e parte das sociedades asiáticas em que tenho vivido do que no país onde nasci.


Nota do editor

Maurício Osaki é cineasta e viveu em Singapura e na China. Está no Vietnã desde 2018. Conheça o trabalho dele através do link no Vimeo.

383 visualizações
  • White YouTube Icon
  • White Instagram Icon

© 2017 por Direto do Japão/Roberto Maxwell. Todos os direitos reservados.