Chá verde: o amargo... e poderoso sabor da saúde

Atualizado: Mai 27


Na memória de muitos marinheiros de primeira viagem fica o gosto amargo da bebida. No entanto, cada vez mais gente no mundo inteiro — genuinamente em busca de saúde ou influenciada pela ditadura da magreza — quer prová-la. Mas manter o corpo em forma é apenas um dos atrativos. Diz-se que é cura para todos os males. No entanto, diferentemente do que acontece com muitos remedinhos milagrosos vendidos nas ruas e feiras populares do Brasil e de muitos lugares do mundo, suas propriedades curativas vem sendo paulatinamente comprovadas pelos cientistas. Seu currículo é longo. A bebida que há milênios ganhou status entre os poderosos e comuns no Oriente só agora vem sendo estudada pela medicina ocidental. Afinal, é o chá verde um elixir milagroso? Vamos conhecer um pouco mais sobre esta bebida adorada pelos japoneses.

Arte e Técnica do Chá

Camellia sinensis é o nome científico da planta do chá. É dela que é feito os chás verde, branco, preto e o oolong. A diferença entre os tipos de chá está na forma de tratamento das folhas. Processos diferentes dão origens a bebidas de cores e sabores distintos. O chá verde é produzido com folhas novas, através de um processo de baixa fermentação que garante o mínimo de oxidação da folha.

O primeiro registro do uso da bebida foi feito na China há 4000 anos. Já naquela época, os chineses usavam o chá verde como uma espécie de remédio. A bebida chegou ao Japão no Período Nara (710-794), trazida por monges budistas que passaram a usá-la em seus rituais. Já no final do século 12, o chá verde era reconhecido pelos japoneses por seus efeitos positivos à saúde.


A relação do Japão com a bebida se tornou tão forte que ganhou status de arte. A cerimônia do chá, inicialmente praticada por religiosos, acabou ganhando os poderosos e, por fim, foi sintetizada no sado, um conjunto de regras e rituais que definem a arte de servir o chá verde. [Assista a minha experiência na cerimônia aqui.]

Normalmente, o chá é colhido duas ou três vezes ao ano no Japão. A primeira colheita, chamada ichiban-cha, é a mais valiosa e é feita no final de abril. As folhas são novas dão ao chá um sabor mais suave. Dois meses depois, é a vez do niban-cha, oriundo da segunda colheita.


Depois de colhido, o chá é beneficiado em pequenas fábricas, num processo que passa por etapas como a vaporização e a secagem das folhas, até o produto final, as folhas enroladas em formato de agulha.


Fazer o chá também exige uma certa técnica. A primeira infusão é essencial porque é nesse momento que as folhas se abrem. A velocidade com que isso acontece determina o grau de amargor do chá preparado. Quanto mais lentamente as folhas se abrirem, mais suave será o sabor da bebida. Para isso, a temperatura da água deve estar em torno de 70 graus. Uma das dicas é usar a água quando ela começa a borbulhar na chaleira. A preocupação não precisa se estender às demais infusões do mesmo chá. O tempo de infusão varia de acordo com a variedade de chá verde escolhida. Mas 3 minutos costuma ser uma média boa para quem gosta da bebida mais suave.

Cidade do bem-estar

Kakegawa [ver mapa] é uma pequena cidade de 80 mil habitantes localizada no centro da província de Shizuoka, a cerca de 2 horas de trem-bala de Tóquio. Cerca de 1500 brasileiros vivem na cidade que tem no chá um de seus principais recursos econômicos. Além disso, os moradores são grandes consumidores da bebida. Ao observar os excelentes índices de saúde apresentados pela população local, o médico Yoichi Sameshima, do Hospital Geral da cidade, reuniu-se com um grupo de outros pesquisadores para tentar entender a influência do chá verdade na saúde dos moradores de Kakegawa. E há fortes indicativos de que o chá verde, sim, faz muito bem a saúde.


Em um artigo, o médico explica que problemas como cáries entre crianças, obesidade, pressão alta e morte por câncer são menores na cidade do que a média do resto do país. Ele e seus colegas identificaram, também, que os idosos da cidade aparentam ser mais jovens. E não é somente por fora, as artérias dos senhores e senhoras de Kakegawa são menos obstruídos que os de moradores de outras localidades onde esses médicos trabalharam. E os bons índices vem acompanhados de um extra: a cidade gasta menos que a média do país em serviços médico-hospitalares. O artigo do doutor Sameshima revela, por exemplo, que a quantidade de médicos por habitante em Kakegawa é a metade da média do país. O médico atribui o excelente resultado, principalmente, ao alto consumo de chá verde entre a população da cidade.

"O chá verde preserva a saúde a um custo muito baixo", diz o doutor Sameshima. Para ele, o chá verde aliado a uma dieta saudável e a bons hábitos no cotidiano são essenciais para promover uma velhice sadia e, ainda, diminuir a pressão nos gastos públicos causados pelo envelhecimento da sociedade. Seu trabalho em defesa do chá verde é tão forte que ele chega a defender que os moradores de todo o Japão adotem o hábito de beber o chá como os moradores de Kakegawa.

Do outro lado do mundo

Não são apenas os japoneses estão interessados em entender como o chá verde funciona no corpo. Na cidade do Porto, em Portugal, um grupo de pesquisadores investigou a relação entre o chá verde e o acúmulo de gordura pelo corpo. Num estudo com ratos, eles verificaram que o chá favorece a redistribuição da gordura corporal, evitando o acúmulo de tecido adiposo nas vísceras, a famosa conjugação barriguinha-e-pneuzinhos. A gordura acumulada no abdômen aumenta os riscos de hipertensão, diabetes e de outras doenças.

Maiores consumidores de chá do planeta, os ingleses também estão pesquisando os benefícios da bebida. Nem a preferência pelo chá preto impediu os pesquisadores da Universidade de Newcastle de buscar respostas acerca das propriedades curativas de um tipo de chá que é muito mais popular entre os asiáticos. O pesquisador Ed Okello, chefe da equipe de pesquisa, explica em artigo que substâncias encontradas na bebidas já foram reconhecidas como efetivas no combate ao Mal de Alzheimer e outras formas de demência. No entanto, os pesquisadores queriam saber se essas substâncias mantinham suas propriedades mesmo depois de digeridas pelo organismo.

"Descobrimos que quando o chá verde é digerido pelas enzimas no intestino, as substâncias resultantes são muito mais efetivas contra os agentes-chave do desenvolvimento do Alzheimer do que na forma não digerida do chá", explica Okello. Apesar de não ter respostas definitivas, o pesquisador recomenda o consumo da bebida.

Os estudiosos de Newcastle descobriram, ainda, que o produto da digestão do chá também tem propriedades anti-cancerígenas. "As substâncias resultantes da digestão protegeram as células, fazendo com que as toxinas não as destruíssem", diz o chefe do grupo de pesquisa. "Nós também observamos que elas afetam as células cancerosas, diminuindo o ritmo do crescimento delas", prossegue.

Para Okello, o trabalho realizado em laboratório apenas comprova o que os chineses já sabiam há centenas de anos. "O que nós temos aqui é a comprovação científica de que [o chá verde] é realmente eficaz contra algumas das doenças mais importante dos dias de hoje", afirma ele.



Cinco ou seis xícaras de chá

O médico e pesquisador Yoichi Sameshima recomenda que entre 5 e 6 xícaras de chá verde por dia são o ideal para um adulto saudável se beneficiar das propriedades da bebida. E não é só o produto vendido para infusão mas, também, o chá comercializado em garrafas pet também vale. "A vantagem é que está sempre a mão", explica ele.


No entanto, alguns especialistas advertem que o consumo do chá verde pode ser perigoso para gestantes e pessoas com problemas cardíacos. Porém, o médico japonês discorda da restrição. "Pessoas com problemas cardíacos podem beber a quantidade recomendada sem problemas. Os moradores de Kakegawa bebem muito mais que isso. Recomendo o mesmo para mulheres grávidas", explica Sameshima. Para aqueles que sentirem palpitações cardíacas depois de tomar a bebida em sua forma normal, ele sugere a versão descafeinada do produto.

O médico também indica o chá para quem quer perder peso. No entanto, ele faz uma ressalva especial para os brasileiros. "Não vale acompanhar com salgadinhos", adverte.

Sameshima é quase um militante. "O chá verde vem fazendo parte do nosso cotidiano há muitos anos e ainda hoje mostra com força que é um grande aliado", escreveu ele em seu artigo. Para o médico, a bebida é uma forma barata de cuidar da saúde e, sim, possuidora de todos os ‘poderes’ que lhe são atribuídos.

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